A escolha do presente de Dia dos Pais já não começa necessariamente em uma vitrine ou em uma busca direta por produto. Ela pode surgir em um vídeo nas redes sociais, na indicação de um influenciador, em uma conversa com uma ferramenta de inteligência artificial ou em um anúncio personalizado. Ao longo desse processo, o consumidor reúne referências em diferentes ambientes e espera avançar para a compra sem encontrar rupturas entre o e-commerce, o aplicativo e a loja física.
Para o varejo, transformar essa inspiração em venda exige muito mais do que uma recomendação relevante. É preciso conectar informações de produto, estoque, preço, pagamento, entrega, retirada e atendimento. Dados do Benchmark de Comércio Unificado para a América Latina 2026, liderado pela Manhattan Associates em parceria com a Incisiv, mostram que essa integração ainda está em construção.
No recorte regional, apenas 41,7% das marcas foram classificadas nos níveis mais avançados de integração entre lojas e canais digitais. Isso significa que muitas empresas ainda encontram dificuldades para acompanhar o consumidor desde a descoberta do presente no ambiente online até a compra, a retirada ou uma eventual troca na loja física. Em Social Commerce, somente 2% alcançaram esse grau de maturidade, indicando que as redes sociais ainda funcionam predominantemente como espaços de inspiração, e não como parte integrada da jornada de compra.
É nesse ponto que o comércio unificado se torna decisivo: ele conecta aquilo que o consumidor descobre e deseja nos canais digitais ao que o varejista realmente consegue oferecer em estoque, pagamento, entrega, retirada e atendimento.
“Hoje, o desafio não é apenas recomendar o presente certo, mas garantir que a experiência continue funcionando depois que o consumidor demonstra interesse. Em uma data como o Dia dos Pais, informações imprecisas de estoque, diferenças de preço entre canais ou dificuldades para retirar e trocar o produto podem interromper a compra. O comércio unificado dá ao varejista a visibilidade e a consistência necessárias para cumprir essa promessa”, afirma Stefan Furtado, Gerente Regional da Manhattan Associates.
O uso de dados e a integração no varejo
Para Bernardo Rachadel, diretor executivo de tecnologia, produtos e inteligência artificial da Zucchetti Latam, multinacional italiana especializada em sistemas de gestão que atende mais de 180 mil empresas no Brasil, a influência da Inteligência Artificial e dos algoritmos na descoberta de produtos aumenta a necessidade de o varejo operar com dados integrados.
“O consumidor pode chegar à loja já convencido sobre o presente por influência de uma rede social, de um criador de conteúdo ou de uma ferramenta de IA. Mas a decisão de compra depende de a experiência corresponder a essa expectativa, com informações consistentes sobre disponibilidade do produto, preço, formas de pagamento e prazo de entrega”, afirma.
Segundo o executivo, é nesse momento que a tecnologia deixa de atuar apenas como ferramenta de marketing e passa a sustentar toda a operação do varejo. Softwares de gestão integrados permitem acompanhar estoque em tempo real, sincronizar informações entre loja física e canais digitais, além de apoiar decisões com base no histórico de vendas e no comportamento de consumo.
“A IA ajuda a identificar tendências, prever demanda e apoiar a operação em tempo real, mas o diferencial está na qualidade dos dados e na integração dos sistemas. É isso que permite ao varejista responder com agilidade às mudanças no comportamento do consumidor e oferecer uma experiência consistente do primeiro contato até a conclusão da compra.”
Para o CMO do Reportei, Renan Caixeiro, a escolha de um presente para o Dia dos Pais é influenciada por uma combinação de recomendações, tendências e conteúdos consumidos ao longo da jornada digital.
“Redes sociais, mecanismos de busca e ferramentas de inteligência artificial disputam espaço na descoberta de produtos, seja por meio de anúncios segmentados, conteúdos de criadores, pesquisas feitas em plataformas de IA ou recomendações baseadas no comportamento do usuário”, diz. Segundo o executivo, essa influência acontece tanto de forma consciente quanto inconsciente. “O algoritmo não decide por você, mas ajuda a definir quais opções chegam até você. Quando um produto aparece repetidamente no Instagram, ganha força em vídeos no TikTok ou surge como sugestão em uma pesquisa feita em uma IA, ele passa a fazer parte do processo de decisão, mesmo que a pessoa não perceba”.
Esse cenário amplia o papel da inteligência artificial e dos algoritmos na jornada de compra, tornando a descoberta de produtos cada vez mais personalizada.
“Em datas comemorativas, poucas pessoas começam a busca pelo presente já sabendo exatamente o que vão comprar. A maioria procura referências, compara opções e vai refinando a decisão conforme interage com diferentes conteúdos. Nesse processo, os algoritmos acabam funcionando como uma vitrine personalizada, mostrando aquilo que tem mais chance de despertar interesse”, completa Caixeiro.
Da recomendação à proteção da experiência na loja física
A influência da IA na jornada de compra não termina quando o consumidor escolhe o presente online e vai até a loja para retirar ou finalizar a compra. Com o aumento do fluxo de clientes durante o Dia dos Pais, o varejo também precisa garantir que a experiência na loja física seja fluida e segura, sem comprometer a conveniência que o consumidor espera desde o primeiro clique.
“Em datas como esta é difícil equilibrar proteção e conveniência. O varejista precisa oferecer uma experiência adequada ao consumidor enquanto protege sua operação. Hoje, tecnologias baseadas em inteligência artificial permitem apoiar as equipes de prevenção de perdas de forma muito mais eficiente e discreta”, afirma Rodrigo Tessari, CEO da Deconve, empresa especializada em prevenção de perdas no varejo físico e integrante do Grupo OSTEC.
A este ponto, soluções de reconhecimento facial auxiliam as equipes de prevenção ao identificar pessoas previamente envolvidas em ocorrências, permitindo respostas mais rápidas e estratégicas para reduzir perdas. Assim, a IA passa a acompanhar toda a jornada do consumidor, da descoberta do presente até a segurança da operação na loja física, mantendo o ambiente seguro sem criar barreiras visíveis ou constrangimentos para quem está comprando.
Provador virtual resolve maior dor no e-commerce: tamanho, troca e devoluções
O consumidor atual deseja que a compra de roupa pela internet seja tão confiável quanto ir a uma loja e experimentar a peça. O desejo fica ainda mais evidente em datas comemorativas como o Dia dos Pais, quando a decisão de compra costuma ser mais rápida e com um agravante: quem compra não está comprando para si mesmo. Por isso, para Janderson Araújo, co-fundador da Sizebay, empresa que integra a Audaces, multinacional ítalo-brasileira, referência global em tecnologia para a indústria da moda e têxtil, as redes sociais e os algoritmos de IA despertam o desejo e levam o consumidor até o produto certo, mas é exatamente na hora de confirmar a compra que entram as dúvidas.
“Saber o próprio tamanho já é um desafio; saber o tamanho certo do pai ou do marido é ainda mais difícil, porque depende de memória, achismo e, muitas vezes, de perguntar disfarçadamente sem estragar a surpresa”, analisa.
De acordo com Janderson, o Dia dos Pais é uma data de alto risco: além do pico de vendas, é também um dos períodos com maior índice de troca e devolução por erro de tamanho, porque grande parte das compras é feita para presentear outra pessoa.
“Na prática, o provador virtual funciona assim: o consumidor informa algumas referências simples, como altura, peso e, quando aplicável, medidas de quem vai vestir a peça, e a tecnologia cruza esses dados com a modelagem específica de cada produto para indicar o tamanho ideal”, explica Janderson.
A ferramenta também conta com um recurso de Try-On virtual, em que o próprio consumidor consegue visualizar a peça no corpo a partir de uma única foto, aproximando a experiência online da sensação de “ver antes de comprar” que só a loja física oferecia até então. A ferramenta reduz até 50% nas trocas por tamanho e aumento de até cinco vezes a taxa de conversão para lojistas que usam a solução em datas de pico como essa.
Conforme o co-fundador da Sizebay, o consumidor busca cada vez mais hiperpersonalização, incluindo o de conteúdo (via redes sociais e IA, para atrair e engajar) e a personalização de tamanho e caimento (via provador virtual, para converter e fidelizar) serão ferramentas indissociáveis para quem vende moda online.
“Não é mais suficiente oferecer uma tabela de medidas genérica. Essa confiabilidade não vem só da tecnologia. Ela vem da soma de duas forças: a inteligência artificial, que processa dados e aprende padrões em escala, e o conhecimento humano de especialistas em modelagem e caimento, que entendem como cada tecido, corte e marca se comporta de fato no corpo”, finaliza.
