O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou em setembro o quinto corte consecutivo da taxa Selic, que chegou a 13,75% ao ano. O patamar ainda é bastante alto, mas menor do que o registrado em março de 2026, quando estava em 14,75%. A decisão recente foi unânime e amplamente esperada pelo mercado. Mesmo assim, para o setor de tecnologia, essa redução gradual — por mais bem-vinda que seja — não resolve o problema estrutural de acesso a crédito que trava o crescimento de startups e scale-ups.
A questão central não está somente no nível dos juros, mas na forma como o sistema financeiro tradicional avalia risco e exige garantias no Brasil. Em sua maioria, as empresas de tecnologia não têm máquinas, equipamentos ou imóveis para oferecer como contrapartida em operações de financiamento. Seus ativos são intangíveis — software, propriedade intelectual, bases de dados. E o mercado de crédito não dá acesso a linhas de financiamento com juros mais adequados para quem não tem garantias materiais a oferecer.
A barreira dupla
Com juros em dois dígitos, o investidor pode aplicar em Tesouro Direto e obter retorno seguro de 13,75% ao ano. Para aceitar o risco de investir em uma startup — e se tornar o que o mercado chama de investidor-anjo, nome que reflete o risco assumido ao realizar esses aportes —, esse investidor exigirá retorno muito superior, ele vai esperar mais de 100% ao ano de crescimento com uma expectativa de lucro muito mais alta do que o que a Selic paga. Se a empresa precisa crescer de forma acelerada, ela vai precisar alavancar o seu negócio, ou seja, vai precisar de dinheiro em caixa para isso.
O resultado? Startups têm dificuldade crescente para atrair investimento. E, quando conseguem, muitas vezes diluem participação societária de forma excessiva logo no início da trajetória. É comum ver fundadores que, após duas ou três rodadas, já cederam 60% ou 70% do negócio.
No crédito bancário, o cenário é ainda pior. Linhas de financiamento com juros subsidiados exigem bens físicos como garantia. Sem isso, o empreendedor fica limitado a linhas de capital de giro com taxas que podem chegar a 200% ou 300% ao ano. Nenhuma empresa sobrevive pagando esses juros.
Uma opção enquanto o mercado busca caminhos
Em 2020, vinte empresas de tecnologia de Santa Catarina decidiram resolver um problema que conheciam de perto: a dificuldade de acessar crédito nos primeiros anos de operação. Empresas consolidadas do ecossistema catarinense aportaram recursos para criar o Fundo Garantidor ACATE (FGA) — um mecanismo que permite às startups do estado complementarem as garantias exigidas por bancos.
O modelo funcionou. Em seis anos, o fundo já apoiou 200 empresas, concedendo R$ 24,9 milhões em garantias que viabilizaram R$ 32,8 milhões em financiamentos. O fundo cobre até 80% das garantias exigidas, permitindo acesso a linhas com taxas diferenciadas, prazos adequados e carência para começar a pagar. É uma solução que atende empresas catarinenses com faturamento anual até R$ 4,8 milhões.
Mas o sucesso do FGA expôs um problema maior: o que acontece quando a empresa cresce além desse limite? Empresas que faturam R$ 10 milhões, R$ 50 milhões, R$ 100 milhões ao ano continuam sem acesso adequado a crédito. Elas já saíram do perfil atendido pelo FGA, mas ainda não têm os ativos físicos que os bancos exigem para liberar financiamentos com taxas competitivas. Por isso, há um movimento de lideranças da ACATE em busca de parcerias públicas para criação de novos modelos de crédito. Num período de incertezas fiscais, o FGA salvou muitas empresas.
Redução não basta
Mesmo com a taxa Selic em torno de 13,75% ao ano, o Brasil segue entre os países com juros reais mais altos do mundo. E com o spread enorme que temos vemos por aqui, isso afeta desproporcionalmente empresas que dependem de capital para escalar. Neste caso, a solução passa por três frentes simultâneas. Primeiro, a criação de fundos garantidores estaduais dimensionados para empresas de médio e grande porte. Segundo, linhas de crédito subsidiadas que sejam desenhadas para a realidade do setor — que considerem ativos intangíveis, ciclos longos de desenvolvimento e necessidade de capital de giro para crescimento acelerado. Terceiro, previsibilidade macroeconômica que permita a redução estrutural dos juros.
O setor de tecnologia brasileiro tem potencial para competir globalmente. Mas esse crescimento pode estagnar ou se consolidar, dependendo das condições de financiamento que conseguirmos construir para as soluções e empresas do setor.
