A manchete da venda da Pismo à Visa por US$ 1 bilhão, em 2023, ficou conhecida. Mas, para as irmãs Daniela e Juliana Binatti, ela não conta a história inteira. No palco do Day1 Endeavor, nesta segunda-feira (26), na Sala São Paulo, as empreendedoras voltaram à infância na Zona Leste de São Paulo para contar como tornaram possível construir uma empresa de tecnologia que chegou aos maiores bancos do mundo.
Duas irmãs, uma trajetória na tecnologia
Filhas de uma família que valorizava a educação e a independência, as duas estudaram em escola pública.
“Minha mãe imprimiu os primeiros currículos e me levou para entregá-los nos bancos da Avenida Paulista”, conta Daniela.
Ela entrou no Mackenzie com bolsa de estudos aos 17 anos e construiu uma carreira em tecnologia que a levou ao cargo de diretora aos 26. Já Juliana começou estudando Nutrição, mas seguiu os passos da irmã mais velha, que lhe ensinou a usar o computador.
A decisão de empreender
As duas conheceram no trabalho Ricardo Josuá e Marcelo Parise, que se tornariam seus sócios na Pismo, mas a decisão de empreender não foi imediata. Daniela tinha uma carreira consolidada e não queria abrir mão da segurança.
Quando saiu da diretoria, acostumada a trabalhar noites inteiras e atender ao telefone a qualquer hora, Daniela descobriu o quanto sua identidade estava ligada ao trabalho quando deixou a empresa.
“Era terça-feira, três da tarde. Fui ao cinema com as filhas e percebi que não sabia o que fazer com o tempo livre”, relata.
Juliana viveu sua própria ruptura depois de uma entrevista de emprego em que receberia metade do salário anterior.
“Se eu depender de arrumar emprego, estou ferrada”, pensou. Para as duas, a escolha estava entre buscar outro crachá ou começar uma empresa do zero.
Quatro sócios e uma folha em branco
A Pismo começou na sala de jantar de Juliana, com uma ideia ambiciosa: construir uma nova infraestrutura tecnológica para o sistema financeiro. Ao lado de Ricardo Josuá e Marcelo Parise, as irmãs apostaram na experiência acumulada em anos de trabalho conjunto para criar uma empresa capaz de modernizar sistemas bancários.
Mesmo precisando de dinheiro, recusaram a proposta de um investidor-anjo depois de avaliar que o contrato não era adequado para a empresa. Vieram outros “nãos”, até o primeiro investimento da Redpoint, em 2016, que abriu portas para um contrato com o Itaú, meses depois.
“Fizemos o combinado de sempre resolver as divergências entre nós e preservar a confiança nas decisões”, relata Juliana.
Mas o crescimento não veio sem sacrifícios. As economias se esgotaram e Daniela chegou a vender o carro para sustentar a jornada. Nos momentos de maior incerteza, as diferenças entre os quatro se tornaram uma força: enquanto Daniela e Ricardo buscavam respostas com urgência, Juliana e Marcelo ajudavam a manter a calma e a confiança no projeto.
Da sala de jantar aos maiores bancos do mundo
Às vésperas da pandemia, uma nova rodada de investimento deu fôlego à Pismo. O trabalho remoto abriu as portas para contratar talentos fora de São Paulo e acelerou a expansão internacional.
Em junho de 2022, a Pismo fechou um contrato com um grande banco em Londres. Pouco depois, a Visa se aproximou da Pismo, inicialmente interessada em sua tecnologia. As conversas evoluíram para uma proposta de aquisição, que surpreendeu os quatro fundadores.
Eles não haviam construído a empresa pensando em vendê-la, e a decisão provocou divergências. A venda por US$ 1 bilhão, anunciada em 2023, transformou a Pismo no primeiro unicórnio brasileiro fundado por mulheres. Para as irmãs, porém, o valor não resume o significado da conquista. “A melhor decisão é a decisão tomada”, disse Juliana, lembrando que a confiança entre os sócios foi determinante para seguir em frente.
