No e-commerce, a inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta para responder perguntas, para se tornar uma aliada poderosa através de sistemas que não apenas de interpretam informações, mas também consultam dados e interagem, diretamente, com ferramentas cruciais utilizadas pelas empresas. É nesse contexto que o Model Context Protocol (MCP) ganha importância, protocolo capaz de otimizar, significativamente, o atendimento às necessidades dos usuários, através de interfaces conversacionais bem mais intuitivas, velozes e eficazes.
Criado pela Anthropic, sua proposta é funcionar como um padrão aberto para conectar aplicações de inteligência artificial a dados, ferramentas e sistemas externos. Na prática, ele permite que um modelo de IA deixe de operar isoladamente, e passe a acessar informações necessárias para executar determinadas tarefas. Em dezembro de 2025, dados da própria empresa revelaram que o ecossistema já contava com mais de 10 mil servidores MCP públicos – sendo adotada, inclusive, por plataformas como ChatGPT, Gemini, Microsoft Copilot, Cursor e Visual Studio Code.
Embora o MCP não tenha sido criado, especificamente, para o comércio eletrônico, suas possibilidades nesse mercado são significativas. Um agente de IA conectado a uma operação de e-commerce pode, por exemplo, consultar informações sobre produtos, verificar disponibilidade, acessar pedidos ou buscar dados operacionais sem depender da navegação tradicional por diferentes sistemas.
Essa mudança pode alterar, principalmente, a forma como os consumidores descobrem produtos. Em vez de pesquisar em um buscador, acessar diferentes lojas e comparar informações manualmente, o usuário pode fazer uma solicitação em linguagem natural e receber recomendações baseadas em dados disponíveis para o agente. Dados da Adobe a respeito da temporada de compras no final de 2025 comprovam esse benefício: ferramentas de IA direcionaram 693,4% mais tráfego aos sites de varejo que no ano anterior.
Ou seja, o salto conceitual é sair de uma IA que “responde sobre produtos” para uma que pode, por exemplo, consultar estoque, verificar preço, aplicar uma regra comercial, recuperar informações de pedido ou acionar uma ferramenta de negócio. Para as empresas, isso significa que o catálogo passa a ter uma importância ainda maior, já que informações como nome do produto, preço, estoque, características, políticas comerciais e disponibilidade precisam estar estruturadas de forma clara e atualizada para que sistemas automatizados consigam interpretá-las corretamente.
Seus impactos também chegam à operação. Um agente conectado aos sistemas internos pode apoiar as equipes na consulta de estoque, análise de pedidos, identificação de oportunidades e acompanhamento de indicadores. Com isso, em vez de alternar entre diferentes plataformas para encontrar uma informação, profissionais podem utilizar interfaces conversacionais para acessar dados e executar determinadas ações.
Todas essas vantagens, certamente, brilham os olhos do empreendedor. Contudo, é importante não confundir as diferentes camadas dessa transformação. O MCP resolve, principalmente, a conexão entre modelos de IA, dados e ferramentas. Outros protocolos estão sendo desenvolvidos, especificamente, para etapas do comércio agêntico, como descoberta de produtos, checkout e pagamentos.
Para o e-commerce, portanto, a principal mudança talvez esteja, justamente, nessa combinação: o site deixa de ser o único ponto de contato entre consumidor e operação, enquanto catálogos, sistemas e processos precisam estar preparados para serem acessados por agentes – o que exige uma revisão profunda da infraestrutura digital. Afinal, dados fragmentados, informações desatualizadas e sistemas que não conseguem conversar entre si podem se tornar barreiras para empresas que desejam participar dessa nova dinâmica de comércio.
O avanço do MCP mostra que a inteligência artificial está evoluindo de uma camada de interação, para uma de execução. No e-commerce, isso pode significar uma mudança profunda na jornada de compra, na operação e na relação entre consumidores e marcas. O desafio para as empresas não será apenas adotar uma nova tecnologia, mas preparar seus dados, sistemas e processos para um ambiente em que agentes de IA também poderão atuar como intermediários entre consumidores e negócios. Aquelas que estruturarem essa base o quanto antes, tenderão a estar melhor preparadas para o próximo estágio do comércio digital.
Renan Cardarello é Fundador e Diretor da iOBEE – Agência de marketing digital e Growth.
