Durante muito tempo, vender para o governo significou lidar com um universo de informações distribuídas entre editais, atas de registro de preços, contratos, diários oficiais, portais de compras e documentos técnicos, que sempre estiveram disponíveis, mas raramente estruturados de forma a apoiar decisões comerciais.
Enquanto empresas que atuam no mercado privado contam com ferramentas capazes de mapear clientes, concorrentes, participação de mercado e comportamento de consumo, quem vende para o setor público ainda depende, em grande medida, de análises manuais, consultas fragmentadas e centenas de documentos para decidir onde investir tempo e esforço.
É nesse contexto que surgiu a Settle, startup brasileira criada em 2024 e que desenvolveu uma plataforma de inteligência artificial voltada exclusivamente para empresas que vendem ao governo. A companhia foi fundada por Alice Iglesias, Bruno Ortiz, José Victor Almada e Mateus Brum, todos com passagem pelo GuiaBolso e forte experiência em tecnologia. A solução combina automação de processos com uma camada de inteligência capaz de transformar grandes volumes de dados públicos em análises que apoiam decisões comerciais, desde a identificação de mercados até a interpretação técnica de editais.
A Settle anuncia oficialmente sua operação ao mercado, estruturada após uma primeira rodada de investimentos recebida no ano de sua fundação, de US$ 3,08 milhões (cerca de R$ 18 milhões, na cotação da época), coliderada pela Canary e Row Capital (antiga 468 Capital). O aporte contou ainda com a participação da Clocktower Ventures e de um grupo de investidores-anjo.
“O mercado público sempre produziu uma quantidade enorme de informações. A diferença é que, até recentemente, transformar tudo isso em inteligência comercial exigia um esforço praticamente inviável. A inteligência artificial muda essa equação porque permite organizar, interpretar e conectar dados que sempre existiram, mas permaneceram dispersos”, afirma Alice Iglesias, cofundadora e CEO da Settle.
A tese da empresa parte de uma mudança de paradigma. Segundo a Settle, a inteligência artificial não altera os fundamentos das compras públicas, em que preço, capacidade técnica, conformidade e relacionamento continuam determinantes para vencer uma licitação. O que muda é a capacidade das empresas de compreender esse mercado, antecipar oportunidades e tomar decisões com muito mais velocidade e profundidade.
Para isso, a plataforma integra continuamente informações provenientes de diferentes fontes públicas — entre elas o Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), portais de disputa, diários oficiais, atas, contratos, planos de contratações anuais (PCA) e portais de transparência — além dos dados internos de cada cliente que são usados apenas para esse tipo de operação. Em seguida, os dados passam por um processo de normalização e linkagem, que relaciona atas, históricos e órgãos compradores com base na expertise da Settle em compras públicas. Quando uma nova licitação é publicada, os agentes da startup analisam a oportunidade de acordo com os critérios definidos pelo cliente e extraem automaticamente as principais informações dos documentos, reduzindo o trabalho manual envolvido na triagem e análise dos editais.
Na prática, isso significa que uma empresa pode automatizar etapas da busca e análise de licitações e, ao mesmo tempo, utilizar a tecnologia para responder perguntas estratégicas sobre o próprio mercado: onde há maior potencial de crescimento, quais órgãos devem ser priorizados, quais contratos estão próximos ao vencimento, entre diversos outros pontos.
“Nosso objetivo é automatizar o trabalho operacional e ampliar a capacidade analítica das empresas, para que elas possam direcionar melhor seus times comerciais e dedicar mais tempo à estratégia”, afirma Mateus Brum, cofundador e diretor da Settle.
Para Alice, esse movimento representa o início de uma transformação mais ampla no mercado B2G.
“Durante muitos anos, as soluções de tecnologia para vendas ao governo focaram na captura de editais e na participação em pregões. Com a IA, temos uma nova possibilidade: apoiar as empresas em diferentes etapas dessa jornada, desde a compreensão do mercado e a antecipação de oportunidades até a análise das licitações.”
Atualmente, a Settle atende empresas que comercializam produtos e serviços para órgãos públicos em diferentes setores como tecnologia, infraestrutura, facilities, saúde e educação. As soluções vão desde inteligência de mercado até análise operacional de editais. Entre os clientes estão Vivo, Betha e BR Supply.
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