Pacientes responderam a dois questionários, que são comuns em investigações clínicas, sobre o convívio com a dor
Um recente estudo publicado na revista BMJ Supportive & Palliative Care mostrou que a substância encontrada na Cannabis Medicinal pode ser receitada com segurança para pessoas que sofrem com dores provocadas pelo câncer. A pesquisa foi liderada pelo médico e professor Antonio Vigano, docente da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. Os cientistas acompanharam 358 pacientes oncológicos, com idade média de 57 anos, durante o período de três anos e meio. Os diagnósticos mais comuns foram tumor urogenital, de mama e de intestino. A dor foi o sintoma mais relatado, sendo descrito por 72,5% das pessoas observadas, o que motivou a prescrição de cannabis medicinal. Os especialistas constataram que a prescrição reduz significativamente a necessidade de analgésicos e opioides (analgésicos de alta potência). Nos questionários respondidos pelos pacientes, o BPI (Brief Pain Inventory), a pontuação da severidade geral da dor caiu 35% em média ao fim do estudo, e a “interferência” da dor na vida dos pacientes caiu 44%. No outro sistema de pontuação, o ESAS-r, a redução média de dor relatada pelos pacientes foi de 46%. De acordo com os pesquisadores, os resultados levam a concluir que a Cannabis Medicinal é um caminho satisfatório quando as drogas convencionais não conseguem atuar de forma efetiva.

Para José Wilson Andrade, vice-presidente da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide, a dor crônica do câncer é um tipo persistente que pode ocorrer como resultado da própria doença ou dos tratamentos usados para tratá-la. O médico comenta que é uma dor contínua de longo período de tempo e, muitas vezes, além da fase aguda do tratamento do câncer. “Os opióides são usados regularmente como parte de uma terapia multimodal nesses casos. Vários estudos já demonstraram a possibilidade de redução de doses de opioides ou mesmo sua completa substituição quando optamos pela terapia com canabinoides. O grande potencial de tolerância e adição que os opioides apresentam não é visto nos canabinoides”, conta.
A Cannabis Medicinal age na dor do paciente de várias formas. José Wilson explica que o CBD tem potencial para modular a liberação de citocinas e interleucinas pró-inflamatórias e anti-inflamatórias. Segundo ele, o CBD e o THC podem interagir com receptores canabinoides em uma região da medula responsável por articular a intensidade do estímulo doloroso (substância periaquedutal cinzenta). “O THC, ao ligar-se a receptores CB1 no cérebro, pode promover a dissociação entre dor e sofrimento, ou seja, diminuir a percepção do paciente em relação à dor”, diz.
De acordo com José Wilson, pacientes tratados com cannabis não desenvolvem tolerância ou dependência (usando dosagens adequadas). Ele esclarece que não existe o risco de overdose (comum com opioides), e o número de efeitos colaterais indesejados são menores e brandos. “Como o paciente com câncer, normalmente, está sendo submetido a um tratamento com várias medicações diferentes, é de suma importância que a interação medicamentosa dos alopáticos convencionais com os canabinoides seja verificada com cuidado, além do controle da função hepática”, aponta.
Conforme o médico, o uso da Cannabis Medicinal em pacientes com neoplasia não se restringe à dor. Efeitos colaterais da quimioterapia, radioterapia e imunoterapia respondem muito bem aos canabinoides. “Observamos o controle eficaz de náuseas e vômitos. Melhoramos o apetite do paciente. Também existe um impacto positivo na qualidade do sono e melhora da ansiedade, problemas comuns associados a esses pacientes”, finaliza.
