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    Home»Negócios»O Design na Construção de Valor e Percepção
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    O Design na Construção de Valor e Percepção

    Meio & NegócioBy Meio & Negócio26 de maio de 2026Nenhum comentário6 Mins Read
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    PEDRO BURGOS - Sócio fundador e CMO da Agência Digitals. Formado em Design pela Hochschule AnhaLt (Antiga Bauhaus – Dessau)
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    Durante muito tempo, o design foi entendido no mercado como a etapa do processo produtivo que era destinada a “embelezar” ideias já prontas. Essa leitura, embora ainda presente em algumas estruturas de comunicação, já não acompanha a complexidade do cenário contemporâneo.

    Em um ambiente de atenção fragmentada, concorrência global e diferenciação cada vez mais sutil, o design deixou de ser uma disciplina exclusivamente estética para se consolidar como uma linguagem estratégica na construção de valor e posicionamento.

    No contexto da publicidade de marcas de alto padrão, essa transformação se torna ainda mais evidente. Não se trata apenas de como uma marca se apresenta visualmente, mas de como ela é percebida pelas pessoas.

    O Design atua como uma ferramenta, que organiza todos os pontos de contato de uma marca, permitindo que o público se sinta de uma determinada maneira e se conecte com a sua própria identidade.

    Marcas que se utilizam desse recurso de forma correta são capazes de estruturar a percepção do mercado sobre si e sobre seus clientes, de sustentar a narrativa e de influenciar diretamente a forma como o público interpreta a marca.

    Relevância, confiança e sofisticação são atributos muito desejados pelas marcas, que podem ser ativamente construídos por um trabalho de Design bem conduzido.

    À medida que produtos e serviços se tornam funcionalmente equivalentes, a disputa entre marcas migra para um território menos tangível e mais decisivo: o da percepção. Cada escolha de design, visual, verbal ou experiencial impacta o que as pessoas pensam sobre ela. No longo prazo, é essa coerência que sustenta a percepção.

    O verdadeiro valor que uma marca cria para o seu público é permitir que essas pessoas se utilizem do seu significado, para comunicar aos outros como elas próprias devem ser percebidas. É como se elas pegassem emprestado esse significado da marca para si, e usassem isso para dizer às outras pessoas quem elas são.

    A estética isolada já não funciona como diferencial competitivo suficiente. Em um contexto saturado de estímulos visuais e campanhas sofisticadas, o impacto imediato perdeu força como principal métrica de eficácia.

    O que realmente diferencia marcas fortes é a consistência do sistema como um todo. Elas não são reconhecidas apenas por elementos visuais específicos, mas pela lógica que conecta produto, comunicação, interface, atendimento e experiência de forma contínua. Essa repetição estruturada é o que constrói memória e, consequentemente, preferência.

    Além disso, a publicidade sempre se utilizou da percepção do público sobre a marca como recurso para diferenciar produtos homogêneos. Muitos vão se lembrar da batalha publicitária entre a Coca Cola e a Pepsi (conhecida como “Cola Wars”), em que a Pepsi conseguiu desafiar a hegemonia da marca líder, ao provar que, sem a marca da Coca Cola, as pessoas preferiam o sabor da Pepsi.

    Campanhas recentes reforçam como o design, em um mundo de produtos e serviços cada vez mais homogêneos, deixou de operar apenas como recurso visual para assumir um papel central na construção de percepção cultural e posicionamento. Em 2025, a Apple expandiu a plataforma “Shot on iPhone” com produções cinematográficas gravadas inteiramente no iPhone 16 Pro, como o curta Big Man, estrelado por Stormzy, transformando o próprio dispositivo em ferramenta narrativa e aproximando tecnologia, cinema e experiência de marca em uma mesma linguagem visual.

    De forma semelhante, a Bottega Veneta consolidou em suas campanhas Summer 25 uma estética baseada em silêncio visual, minimalismo e sofisticação discreta, utilizando cenários contemplativos, direção de arte precisa e elementos simbólicos para construir desejo sem recorrer ao excesso de exposição. Em ambos os casos, o valor não está apenas na estética isolada, mas na coerência entre narrativa, comportamento e experiência, reforçando o design como estrutura estratégica de percepção e legitimidade cultural.

    Nas marcas de alto padrão, esse aspecto se torna ainda mais sensível. O público não responde apenas à aparência, mas à precisão da linguagem, à coerência simbólica e à clareza da intenção.

    Em um cenário marcado pela hiperprodução de imagens, aceleração digital e popularização de ferramentas de inteligência artificial capazes de gerar estéticas sofisticadas em escala, o valor percebido deixa de estar apenas na aparência e passa a residir na capacidade de construir significado, consistência e distinção cultural.

    O luxo contemporâneo não se manifesta no excesso ou na ornamentação explícita, mas na capacidade de reduzir ruído e criar experiências cuidadosamente articuladas, nas quais cada elemento parece inevitável.

    A sofisticação deixa de ser performática e passa a operar por meio da precisão: materiais, ritmo visual, silêncio gráfico, narrativa, atendimento e comportamento da marca funcionam como partes de um mesmo sistema perceptivo.

    Marcas como Veneta, Hermès e Loro Piana exemplificam essa lógica ao construir desejo não pelo excesso de exposição, mas pela extrema coerência entre produto, comunicação e experiência. Em vez de competir por atenção através do excesso, essas marcas operam pela construção de percepção: materiais silenciosos, interfaces limpas, narrativas minimalistas e decisões visuais que transmitem confiança sem precisar explicá-la.

    Nesse contexto o design deixa de atuar apenas como camada estética ou ferramenta de diferenciação visual. Sua função passa a ser organizar significado, orientar leitura cultural e construir memória. Mais do que tornar uma marca “bonita”, o design contemporâneo atua na construção de legitimidade simbólica: define como a marca ocupa espaço, como é interpretada socialmente e quais sensações é capaz de sustentar ao longo do tempo.

    Por isso, não existe separação real entre estratégia e design. Quando desconectados, ambos perdem força. Estratégias sem expressão consistente tendem a permanecer abstratas e pouco perceptíveis.

    Peças de Design sem base estratégica sólida se tornam apenas exercícios estéticos, muitas vezes interessantes, mas incapazes de gerar valor duradouro. O que diferencia marcas relevantes é justamente a integração entre pensamento estratégico e linguagem de design como partes de um mesmo sistema.

    Em um mercado onde produtos se tornam rapidamente equivalentes e imagens sofisticadas podem ser produzidas em abundância, o diferencial competitivo deixa de estar apenas na estética e passa a residir na capacidade de construir significado com consistência ao longo do tempo.

    Marcas fortes não são apenas vistas: são percebidas com clareza, reconhecidas com coerência e lembradas com intenção. É nesse território que o design se consolida não apenas como forma, mas como estratégia.

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