Fazer uma entrevista de emprego a qualquer hora do dia ainda parece pouco convencional. Mas, para quem trabalha em horários alternativos, concilia diferentes atividades ou simplesmente não consegue encaixar uma conversa com o recrutador durante o expediente, poder escolher quando participar de uma seleção pode fazer diferença. Para as empresas, significa também deixar de depender da coincidência entre a agenda do candidato e a disponibilidade do time de recrutamento.
É essa lógica que InHire, plataforma de tecnologia para recrutamento e seleção, e Intera, consultoria de recrutamento e seleção digital, querem explorar com o RPO Virtual. O serviço, desenvolvido em parceria pelas duas empresas, serve para ampliar a capacidade dos times de recrutamento e conduzir parte relevante do processo seletivo de forma assíncrona, com apoio de inteligência artificial. Como uma capacidade adicional para os times de recrutamento — uma espécie de novo headcount potencializado por inteligência artificial, capaz de assumir etapas que demandam volume, disponibilidade e velocidade.
Ele atua desde a atração e inscrição dos candidatos até a triagem, entrevista e encaminhamento dos profissionais aprovados para a etapa final com o gestor responsável pela contratação. Como algumas dessas etapas não dependem mais da presença simultânea de um recrutador, o processo pode continuar avançando fora do horário comercial.
Um candidato pré-aprovado, por exemplo, recebe pelo WhatsApp o acesso à entrevista e pode realizá-la no momento mais conveniente — mesmo durante a madrugada. Para quem não tem um currículo disponível, é possível até contar a própria trajetória profissional por texto ou áudio. A conversa é conduzida por um agente de inteligência artificial, que avalia os critérios previamente estabelecidos para aquela vaga.
“A maior mudança é deixar de tratar a agenda como uma limitação do processo seletivo. Hoje, muitas etapas só avançam quando o candidato e o recrutador conseguem estar disponíveis ao mesmo tempo. Com a IA, parte desse processo passa a acontecer de forma contínua, respeitando também o momento em que o candidato consegue participar”, afirma Paula Morais, fundadora da Intera e da InHire.
A InHire nasceu como um desdobramento da experiência construída pelos fundadores na Intera. Enquanto a Intera se especializou na operação de recrutamento e em projetos de RPO — modelo em que uma empresa amplia sua capacidade de recrutamento com apoio de uma operação externa —, a InHire desenvolveu uma plataforma de tecnologia voltada para recrutamento e seleção.
No RPO Virtual, essas duas frentes se encontram. A proposta é combinar a experiência da Intera na condução de processos seletivos de alto volume com a tecnologia desenvolvida pela InHire.
“A IA faz mais sentido quando consegue retirar do recrutador tarefas operacionais que consomem muitas horas e liberar esse profissional para aquilo que exige mais contexto, relacionamento e capacidade de decisão. A tecnologia aumenta a capacidade do time, em vez de simplesmente reproduzir a mesma forma de trabalhar”, diz Paula.
Processo começa pelo WhatsApp
A experiência pode começar antes mesmo da entrevista. Para vagas de alto volume, são realizadas campanhas segmentadas por região em plataformas como Facebook, Instagram e outras plataformas. Ao clicar no anúncio, o candidato é direcionado diretamente para uma conversa pelo WhatsApp.
É pelo aplicativo que o serviço coleta as informações necessárias para a candidatura. O profissional pode enviar seu currículo, mas há também uma alternativa para quem não tem o documento disponível ou encontra dificuldade para anexá-lo: contar a própria trajetória profissional por texto ou áudio.
A partir dessas informações, a triagem é realizada de acordo com os critérios definidos para cada posição. Os candidatos que avançam recebem pelo próprio WhatsApp o acesso à entrevista com o agente de inteligência artificial.
Depois da conversa, o serviço avalia os critérios daquela vaga e os profissionais aprovados podem ser encaminhados para uma entrevista final com o gestor da empresa contratante.
Segundo Paula, reduzir o número de barreiras ao longo dessa jornada é especialmente importante em processos seletivos para vagas operacionais e de alto volume.
“Quando trabalhamos com centenas de candidatos, cada atrito importa. Se a pessoa precisa criar uma conta, preencher um processo muito longo ou aguardar vários dias até encontrar um horário para conversar com alguém, aumenta a chance de ela abandonar aquela candidatura. O desafio não é só atrair candidatos, mas conseguir fazê-los avançar pelo processo com velocidade”, afirma.
Esse é um problema particularmente presente em setores como o varejo, em posições como vendedor, atendente, promotor e consultor comercial. São vagas que podem permanecer abertas continuamente, seja pela expansão das operações, seja pela necessidade constante de reposição das equipes.
Em uma conversa recente relatada pela Intera, uma empresa cliente afirmou acumular 146 vagas ainda não preenchidas, ao mesmo tempo em que havia registrado mais de 200 saídas por turnover no mês anterior. O exemplo ajuda a ilustrar um dos problemas que o novo modelo pretende atacar: em operações de grande escala, novas posições podem surgir mais rapidamente do que a capacidade disponível do RH para entrevistar e avaliar candidatos.
“Em recrutamento de volume, muitas vezes o gargalo não está em abrir uma vaga ou gerar interesse. Está em conseguir processar todas aquelas candidaturas na velocidade necessária. Quando a fila cresce, o time começa a correr atrás de uma demanda que nunca termina”, diz Paula.
Em um dos processos já conduzidos nesse formato, para uma grande varejista brasileira, 43 pessoas participaram de entrevistas com o agente de inteligência artificial. Desse total, sete candidatos chegaram à entrevista presencial com o gestor e três foram contratados. O processo foi concluído em 12 dias.
Entrevistas sem fila de agenda
A possibilidade de realizar entrevistas de maneira assíncrona é uma das principais diferenças do modelo. Em uma seleção tradicional, mesmo depois da triagem, cada entrevista exige encontrar um horário compatível entre candidato e recrutador. Multiplicada por dezenas ou centenas de pessoas, essa dependência de agenda pode ampliar o tempo necessário para preencher uma vaga.
Com uma entrevista conduzida por IA, várias pessoas podem avançar no processo sem entrar em uma fila de horários disponíveis. Isso não significa, no entanto, que a inteligência artificial faça sozinha toda a contratação. No desenho do RPO Virtual, o gestor da empresa entra na etapa final para conhecer os profissionais que passaram pelas fases anteriores, validar os candidatos e decidir quem será contratado.
A proposta é concentrar a intervenção humana onde ela é considerada mais relevante para a tomada de decisão, enquanto a tecnologia absorve etapas repetitivas e de alto volume. “A pergunta não é necessariamente se a IA vai substituir o recrutador. Mas quais atividades ainda precisam depender do tempo desse profissional e quais já podem ser apoiadas ou executadas pela tecnologia. Quanto mais capacidade você libera, mais o recrutador consegue atuar de forma estratégica”, afirma Paula.
