A dor pode ser classificada com base no mecanismo fisiopatológico, duração, localização anatômica e presença de malignidade. Compreender essas definições é crucial para orientar o diagnóstico e o tratamento. Com relação à fisiopatologia, ela pode ser classificada como neuropática (lesão ou disfunção do sistema nervoso periférico ou central); nociplástica (aumento da sensibilidade do sistema nervoso central); nociceptiva (lesão tecidual) ou mista. Mas é a duração que define a dor crônica – uma evolução superior a três meses. José Wilson Andrade, médico e vice-presidente da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide, diz que o uso de canabinoides, para tratamento, já foi estudado em todas as causas de dor crônica com ótimos resultados.
De acordo com ele, os fitocanabinoides mais utilizados no tratamento de dores crônicas são o CBD (canabidiol) e o THC (tetrahidrocanabinol). O CBD tem a capacidade de modular o sistema inflamatório, que faz parte da gênese da dor, diminuindo a produção de substâncias pró-inflamatórias e estimulando as anti-inflamatórias. Além disso, é um excelente ansiolítico e melhora a qualidade do sono, problemas frequentes no portador de dor crônica. O THC interage com receptores canabinoides promovendo melhor modulação da dor. “No cérebro pode
promover uma dissociação entre dor e sofrimento, ou seja, diminuir a percepção da dor pelo paciente. Combinados na dosagem correta, esses fitocanabinóides são uma excelente opção terapêutica”, aponta.
José Wilson Andrade destaca que as maneiras mais comuns de a pessoa utilizar o canabidiol acontecem, usualmente, através da prescrição oral e sublingual, na forma de tinturas e óleos. “Existe a possibilidade de aplicação tópica de cremes e bálsamos. Estão disponíveis supositórios para pacientes com problema de
deglutição, patches transdérmicos, comprimidos, cápsulas. As possibilidades são muitas. Vale ressaltar que em alguns países, como Israel, por exemplo, a vaporização de flores in natura é frequente, principalmente em casos de agudização do quadro, quando precisamos de resposta imediata”, comenta. No Brasil, a via de administração ainda não foi regularizada pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Segundo o médico, a vantagem do uso de fitocanabinoides, no manejo da dor crônica, é a pequena incidência de efeitos adversos quando comparados à medicamentos alopáticos usuais. José Wilson pontua que os analgésicos opioides, muito usados nesses casos, são um problema de saúde pública em quase todos os países em decorrência de seu potencial de abuso e adição. “Vários estudos já comprovaram a possibilidade de substituição ou diminuição na dose de opióides quando combinados aos fitocanabinoides. Anti-inflamatórios não hormonais,
principalmente na população idosa, podem trazer sérias complicações renais. Anticonvulsivantes e antidepressivos, muito utilizados, trazem vários efeitos colaterais que impactam o humor do paciente. Claro que como qualquer medicamento, fitocanabinoides tem contraindicações. Pacientes com doença cardiovascular descompensada e diagnóstico ou histórico familiar de psicose devem evitar o THC. Disfunção hepática pode limitar o uso de CBD e THC. Gestantes, lactantes e crianças também são populações onde encontramos restrições. É necessário também avaliar a interação dos fitocanabinoides com outras medicações em uso”, explica.
Recentemente, médicos se reuniram no Congresso Brasileiro de Reumatologia, realizado em Goiânia, para discutir os prós e contras no uso da substância para fins medicinais. Perguntado se ainda falta uma comunicação mais assertiva entre a classe médica em relação ao assunto, José Wilson argumenta que a falta de educação médica é um obstáculo para a maior utilização da Cannabis Medicinal. “A grande maioria das faculdades de Medicina ainda não contemplam o ensino do Sistema Endocanabinóide em suas grades curriculares. O preconceito é embasado
na falta de conhecimento. Este ano, a Faculdade de Medicina do ABC, no estado de São Paulo, introduziu a matéria como disciplina eletiva. Estamos avançando”, conta. Quando se questiona que a Cannabis Medicinal ainda é pouco acessível no Brasil e tem o custo elevado, o médico mostra que existe queda contínua nos custos para o tratamento com fitocanabinoides, pois a opção crescente de produtos importados (Resolução da Diretoria Colegiada – Anvisa – RDC 660) e nas farmácias (Resolução da Diretoria Colegiada – Anvisa – RDC 327) leva a concorrência a praticar preços mais acessíveis. “Nas farmácias, temos 23 medicamentos derivados de Cannabis – referente aos importados – e temos mais de uma centena de opções. Uma queda efetiva nos valores só deve ocorrer quando o plantio para produção em território nacional for regulamentada”, acredita.
