Neste Dia dos Pais, a comemoração tem um significado ainda mais profundo para o tricampeão mundial de longboard Phil Rajzman. Depois de quase dois anos enfrentando um linfoma não Hodgkin, o atleta conclui o tratamento e celebra aquilo que considera sua maior vitória: a vida. A recuperação marca também o início de um novo ciclo. Com a saúde restabelecida, Phil reforça os treinamentos para buscar, em 2027, a classificação para o Circuito Mundial, do qual fez parte durante 25 anos. Enquanto isso, se dedica ao papel que considera o mais importante: ser pai de Rafaela, de 19 anos, e Coral, de seis.
Neste momento da vida, celebrar o Dia dos Pais significa olhar para trás e reconhecer que as maiores conquistas não são apenas medalhas ou troféus. Elas estão nas experiências compartilhadas entre gerações, nos valores transmitidos de pai para filho e nas memórias construídas em família. “Hoje, celebrar o Dia dos Pais é celebrar a vida. Depois de tudo o que vivi, percebo ainda mais que os melhores presentes nunca foram materiais. São as viagens, uma trilha, uma conversa, uma onda surfada juntos. São essas lembranças que permanecem para sempre”, afirma Phil.
Filho de Bernard Rajzman, medalhista olímpico de vôlei (1984) e um dos maiores nomes da história da modalidade no Brasil, Phil cresceu em um ambiente onde disciplina, dedicação e respeito sempre fizeram parte da rotina. Mas foi somente ao se tornar pai que compreendeu, de fato, o tamanho da responsabilidade que acompanha esse papel.
“A paternidade mudou completamente minha forma de enxergar a vida. Antes eu era totalmente focado na carreira. Quando minhas filhas nasceram, passei a pensar no futuro, em proporcionar oportunidades para elas e construir um legado. Também descobri o verdadeiro significado do amor incondicional.”
Não por acaso, a chegada da primeira filha coincidiu com um dos momentos mais importantes da carreira. Rafaela nasceu em março de 2007. Apenas dois meses depois, o carioca entrou para a história do país no longboard, como o primeiro brasileiro campeão mundial de surfe. “Ela foi uma peça fundamental. Quando a Rafa nasceu, eu passei a enxergar um propósito muito maior para tudo o que fazia.”
O exemplo que vale muito

Para Rafaela, a relação com o pai é muito rica: “Ele é o meu primeiro amor, meu herói, meu maior exemplo e o meu maior orgulho. Antes de ser campeão do mundo, ele sempre foi e sempre será o meu campeão”, afirma a jovem que cursa Engenharia de Produção, na Universidade Federal Fluminense.
Ela diz que cresceu admirando não apenas o atleta, mas principalmente o homem por trás das conquistas. “Se hoje eu sou quem eu sou, uma grande parte disso devo a ele. Crescer ao lado do meu pai foi um privilégio, porque pude conhecer muito mais do que o esportista que as pessoas veem.”
Entre tantas lembranças, Rafaela guarda com carinho os longos “papos cabeça” que costumam ter. “Uma das minhas lembranças favoritas é quando sentamos na beira da piscina, à noite, olhando o céu estrelado, e ficamos horas conversando sobre a vida e o universo. Foi um momento simples, mas inesquecível.”
Nos últimos anos, porém, nenhum ensinamento foi tão marcante quanto acompanhar o pai durante o tratamento.
“O marcante foram as atitudes de meu pai diante do desafio. Vê-lo enfrentar o câncer com tanta força mental me mostrou que a maneira como escolhemos enfrentar esses momentos faz toda a diferença. Esse exemplo vou levar para a vida inteira.”
Ela também carrega uma frase repetida inúmeras vezes por Phil durante sua formação. “O campeão não é quem ganha, é quem mais se diverte. Isso me ensinou que viver o processo é muito mais importante do que pensar apenas no resultado.”
Nova geração carrega o DNA

Com a pequena Coral, Phil conta que a conexão acontece principalmente dentro d’água. Aos seis anos, ela já acompanha o pai nas aventuras, faz trilhas, anda de bicicleta e aprende a surfar ao lado de quem mais confia. “Quando tem algum perigo, meu pai me ajuda, me leva para o lugar certo e me explica porque aquele é o lugar mais seguro.”
Para o pai coruja, cada sessão de surfe com a filha tem um significado especial. “Toda vez que vejo a Coral pegando uma onda, é como se eu voltasse a ser criança. Eu revivo minhas primeiras ondas, meus medos, minhas descobertas. É como se estivesse aprendendo tudo outra vez junto com ela.”
Mais do que ensinar manobras, ele procura transmitir valores que considera fundamentais. “O mar ensina humildade, respeito e paciência. Ensina que ninguém controla a natureza e que precisamos aprender a observar, esperar e respeitar o momento do outro. É isso que tento mostrar para ela todos os dias.”
Na visão de Coral, o pai também é um herói. Se pudesse escolher um presente para este Dia dos Pais, ela já sabe qual seria. “Eu daria uma prancha com aquela quilha gigante para ele surfar até sem onda.” Phil esclarece que a ‘quilha gigante’ que ela fala, é o Foil Board (prancha de surfe ou esporte aquático equipada com uma asa hidrofólio, foil, que permite planar acima da água).
Um legado que começou com Bernard

Medalhista olímpico de vôlei, Bernard Rajzman e seu filho, Phil, tricampeão mundial de longboard (Crédito Mário Nardy)
Bernard Rajzman acompanha com orgulho a trajetória construída pelo filho e acredita que o maior patrimônio deixado entre gerações não está apenas nas conquistas esportivas. “Os principais valores que procurei transmitir para o Phil foram honestidade e determinação. É isso que vejo nele até hoje.”
Embora tenham escolhido esportes diferentes, Bernard acredita que as exigências para chegar ao alto rendimento são as mesmas. “Para ser campeão é preciso abrir mão de muita coisa. Foi isso que permitiu ao Phil conquistar tudo o que conquistou.”
Hoje, o criador do saque “Jornada nas Estrelas” observa com satisfação a maneira como o filho transmite esses mesmos ensinamentos para Rafaela e Coral. “O esporte fortalece a sociedade, inspira os jovens e forma pessoas melhores. O maior presente que um filho pode dar é viver com princípios, cuidar da família e seguir fazendo o bem. É exatamente isso que o Phil vem realizando.”
Ao olhar para a própria história, Phil reconhece que o maior legado recebido do pai vai muito além do esporte.
“Meu pai sempre me ensinou que tudo é merecimento. Você só conquista aquilo para o que realmente se prepara. Essa mentalidade me ajudou a ser campeão do mundo e, também, me sustentou durante a maior batalha da minha vida.”
Segundo ele, a luta contra o câncer reforçou ainda mais essa convicção.
“Está sendo mais uma vitória concluir esse tratamento, recuperar minha saúde e continuar construindo memórias ao lado das pessoas que amo.”
Entre uma medalha olímpica, três títulos mundiais e uma nova geração que começa a descobrir o oceano, a história da família Rajzman mostra que o verdadeiro legado do esporte não está apenas nos pódios. Está na coragem para enfrentar as adversidades, na força para recomeçar, no respeito ao próximo e na capacidade de transformar cada conquista em inspiração para quem vem depois.
