A Esclerose Múltipla (EM) é uma doença em que o sistema imunológico do paciente desencadeia um ataque aos tecidos do próprio corpo (reação autoimune). Isso ocorre nos neurônios do cérebro e medula espinhal,
destruindo a bainha de mielina (tecido que recobre os nervos). Essa “desmielinização” compromete a transmissão dos impulsos nervosos causando problemas motores e de sensibilidade. A causa é desconhecida e não há cura.
Ocorrem 15 casos a cada 100.000 pessoas. No Brasil, mais de 40.000 pessoas têm o diagnóstico. Espasmos, rigidez muscular, alteração da marcha, dor neuropática, fadiga, depressão e incontinência urinária são alguns dos
sintomas. O paciente tem períodos de remissão e recaída muito variáveis. Corticoides e imunomoduladores são as drogas mais utilizadas para o controle, ambas com diversos efeitos colaterais.

Segundo o médico José Wilson Andrade, vice-presidente da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide, a aplicação de canabinoides no tratamento da Esclerose Múltipla é estudada há mais de duas décadas. Os resultados são extremamente positivos. A primeira medicação a entrar nas farmácias do Brasil à base de canabinoides, aprovado pela ANVISA em janeiro de 2017, foi o Mevatyl. Trata-se de um extrato balanceado (1:1) de tetrahidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD) cuja indicação é o controle da espasticidade na Esclerose Múltipla. A dor crônica que acompanha os pacientes também mostra boa resposta aos fitocanabinoides, por seu potencial anti-inflamatório e diminuição da percepção da dor no sistema nervoso central.
“Ansiedade e depressão, sintomas que são presentes na maioria das doenças crônicas, também podem ser mitigados, visto que os canabinoides agem nos receptores de serotonina. Qualidade do sono e modulação do apetite obtêm grande auxílio no tratamento. Tudo isso associado a uma mínima incidência de efeitos colaterais indesejados”, aponta. O médico afirma que os canabinoides não são isentos de contraindicação, como qualquer medicamento. O THC, por exemplo, não deve ser usado em pacientes com histórico pessoal ou familiar de psicose e esquizofrenia. Pacientes com alterações cardiovasculares também precisam de mais cuidados. Gestantes e lactantes não devem utilizar.
O tratamento com derivados de cannabis ainda tem um valor elevado no nosso país, mas já houve uma redução significativa. O custo do fingolimode (imunomodulador) pode ultrapassar os R$9.000 por mês, muito maior ao ser
comparado com o valor médio do tratamento com fitocanabinoides. “É difícil calcular este valor, pois a dose é muito particular em cada caso, mas uma estimativa realista gira ao redor de R$1.000 a R$2.000 mensais. Vale lembrar que a maioria dos estados determinou a distribuição de canabinoides pelo SUS. Esse movimento foi iniciado com a aprovação da Lei 17618/2023, de autoria do deputado Caio França, em São Paulo. Infelizmente, a Esclerose Múltipla, ainda não consta na lista de patologias que devem ser beneficiadas, mas este fato deve mudar em breve”, acredita o médico.
