Durante muitos anos, a internacionalização de empresas brasileiras foi tratada como um movimento restrito a grandes grupos econômicos, com capacidade financeira e operacional para competir fora do país. Porém, o avanço das fusões e aquisições (M&A) tem mostrado uma mudança significativa nesse cenário. Dados da KPMG mostra que o mercado brasileiro registrou 1.581 operações no quarto trimestre de 2025, em um levantamento que analisou 43 setores da economia. O destaque ficou para o segmento de tecnologia, refletindo não apenas o amadurecimento do ecossistema de inovação do país, mas também uma movimentação cada vez mais estratégica das empresas brasileiras em busca de expansão e competitividade internacional.
O país reúne fatores difíceis de encontrar simultaneamente em outros mercados, como escala econômica, diversidade setorial, capacidade de consumo e um ambiente empresarial cada vez mais profissionalizado. Soma-se a isso o amadurecimento do ecossistema de investimentos, com crescimento relevante da atuação de fundos de private equity, venture capital e investidores internacionais interessados em utilizar o Brasil como plataforma para expansão regional.
Setores que lideram
Esse movimento ganha força especialmente em setores ligados à tecnologia, serviços financeiros, infraestrutura, energia e agronegócio, segmentos nos quais o Brasil já possui escala, competitividade e capacidade de atrair capital estrangeiro. Mesmo diante de ciclos de instabilidade econômica global, o país continua despertando interesse de investidores internacionais principalmente pela percepção de que há oportunidades estruturais no longo prazo.
O investidor estrangeiro não olha apenas para o cenário imediato, ele avalia potencial de crescimento, capacidade de consolidação setorial e a possibilidade de capturar eficiência operacional em mercados ainda em transformação. Nesse contexto, empresas brasileiras passaram a ocupar uma posição mais estratégica dentro da dinâmica global de investimentos.
Outro fator que acelerou essa transformação foi o crescimento do venture capital no país. O avanço desse mercado trouxe, além de recursos financeiros, maior disciplina operacional, fortalecimento de governança e uma cultura empresarial mais preparada para escalar internacionalmente. Startups e empresas de médio porte passaram a operar com estruturas mais sofisticadas, alinhadas às exigências de investidores globais e de operações cross-border.
Desafios globais
Entretanto, muitas empresas brasileiras subestimam a complexidade operacional envolvida em uma expansão multinacional. Questões tributárias, compliance internacional, integração de processos, contratação em diferentes jurisdições e adaptação regulatória continuam sendo gargalos importantes.
É justamente nesse ponto que muitas operações fracassam, não durante a negociação, mas após sua conclusão. O sucesso de uma aquisição internacional depende diretamente da capacidade de integrar estruturas, adaptar operações e criar bases sustentáveis para o crescimento futuro.
O desafio se torna ainda maior em operações carve-out ou spin-off, nas quais empresas precisam estruturar rapidamente novas entidades, tecnologias e operações independentes. Em cenários cross-border, a velocidade de execução precisa caminhar ao lado da previsibilidade operacional e isso exige experiência prática, conhecimento e capacidade de coordenação global.
É nesse contexto que o papel de consultorias especializadas ganha relevância estratégica, em operações internacionais é necessário conectar diferentes mercados, legislações e estruturas operacionais sem comprometer a eficiência, governança e prazo de execução.
O mercado brasileiro de M&A ainda deve passar por um novo ciclo de amadurecimento nos próximos anos, impulsionado pela estabilização gradual de fatores macroeconômicos e pelo avanço da transformação digital em diversos setores. Ao mesmo tempo, empresas brasileiras tendem a utilizar cada vez mais operações estratégicas como ferramenta para acelerar inovação, expansão e competitividade internacional. E vencer nesse ambiente depende menos da capacidade de assumir riscos e mais da habilidade em transformar complexidade em execução eficiente.


