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    Filme revela apagamento da memória negra nas igrejas

    DinoBy Dino30 de abril de 2026Nenhum comentário4 Mins Read
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    A memória de personagens negros que marcaram a história do Brasil ainda enfrenta lacunas significativas, sobretudo em registros documentais. Em diferentes áreas, inclusive no campo religioso, essas ausências revelam como trajetórias importantes foram ignoradas ao longo do tempo.

    A chegada do filme documentário Esquecendo Flora às plataformas digitais insere no debate público uma questão historicamente negligenciada: o apagamento da memória negra nas instituições religiosas no Brasil.

    A obra, dirigida pelo diretor paulista Beto Oliveira, articula pesquisa histórica e linguagem audiovisual para examinar como o racismo estrutural se consolidou também no ambiente das igrejas protestantes, especialmente no interior de São Paulo.

    "Esquecendo Flora" investiga a trajetória de Flora Maria Blumer de Toledo, mulher negra que viveu cerca de cinco décadas sob escravidão no século XIX e, posteriormente, conquistou sua alforria. Apontada como a primeira mulher negra admitida em uma igreja protestante no país, sua história permanece ausente dos registros oficiais mais difundidos.

    A escassez documental não é episódica. Pesquisas sobre registros criminais e escravidão no Brasil Imperial indicam que pessoas negras, durante o período escravocrata, eram frequentemente registradas em documentos produzidos por instituições de controle, como arquivos policiais e judiciais. Esse padrão é frequentemente associado ao que pesquisadores classificam como apagamento da memória na formação histórica do Brasil.

    "O que representa mais um daqueles silêncios estruturais da história nacional, e a prova fria e injusta de que o racismo estrutural histórico existe e também está ativamente presente nas instituições religiosas de forma sofisticada e sutil", destaca o diretor do filme.

    A produção do documentário envolveu quatro anos de investigação em arquivos institucionais e documentos judiciais. Segundo o diretor Beto Oliveira, a análise desses materiais evidenciou a profundidade das estruturas de desigualdade racial no interior de São Paulo.

    O longa aborda a identidade racista e colonial de uma região classificada por historiadores como Mississipi Paulista. Contextualizando a presença de colonos norte-americanos no interior de São Paulo após a Guerra de Secessão (1861–1865), como agentes de um sistema escravagista peculiar. A migração de confederados após a guerra civil americana indica que, após a derrota no conflito, grupos ligados ao sul dos Estados Unidos buscaram se estabelecer em países onde a escravidão ainda era permitida, como o Brasil.

    Diante da fragmentação dos registros, o documentário adota uma abordagem que combina depoimentos, performances e análises de especialistas para reconstruir uma memória possível. A estratégia narrativa dialoga com conceitos contemporâneos do jornalismo interpretativo, ao reconhecer os limites da documentação histórica e propor leituras críticas sobre o passado.

    "A voz silenciada de Flora ecoa através de sons proféticos de inúmeras mulheres negras, teólogas e leigas, que ao longo dos últimos 30 anos têm sido lançadas ao ostracismo, à invisibilidade e ao desamparo social pela institucionalidade das igrejas protestantes", disse Vanessa Barboza, coordenadora da Rede de Mulheres Negras Evangélicas, e ativista na ONG Casa Galiléia ao Carta Capital sobre o filme.

    O filme reúne entrevistas com: Alexandra Lohas, Adelino Ademir José, Antonio Filogênio Junior, Carlos Carvalho Cavalheiro, Giovanna Fenili Calabria, Joana D´arc Oliveira, entre outros, contribuindo para a análise dos processos sociais que levaram ao apagamento da presença negra na história oficial, incluindo as igrejas.

    O filme já foi selecionado oficialmente para o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul em 2023 no Rio de Janeiro e para o Festival Jackson Lane Doc, em Tennessee, EUA, e teve exibições importantes nas capitais de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.

    "Sendo mulher, Flora tem uma história de resistência política e de gênero que nós consideramos importante que seja retratada através desse documentário", afirmou Rose Soares, do Movimento Pretas da Alesp, na exibição do filme na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

    A direção de produção de Esquecendo Flora é assinada por Beatriz Ferraz, que reflete sobre a importância de desenvolver um olhar crítico sobre a história. "Olhar para o nosso passado e fazer conexões com o presente é essencial para realmente podermos dizer que estamos comprometidos com um futuro antirracista", diz a produtora.

    O filme se encontra disponível nos streamings BoxBrazil Play, Amazon Prime, e Claro TV.

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