No cenário tecnológico atual, a cibersegurança não pode mais ser tratada apenas como um jogo de “gato e rato”, focado exclusivamente em defender a infraestrutura tecnológica. As organizações precisam dar um passo além do simples combate técnico, pois o desafio reside na capacidade de suportar os negócios de forma compreensiva, com governança de IA, resiliência gerenciada e apoio à recuperação rápida nas hipóteses de ataques, que estão cada vez mais sofisticados. Sofisticação esta, que extrapolou para fraudes digitais e cibernéticas propriamente ditas, nas quais agentes de IA passaram a ser ativamente usados.
Embora mais de 65% das organizações já utilizem a Inteligência Artificial Generativa, a IA agêntica, regularmente em suas operações, assustadores 40% o fazem sem qualquer tipo de framework de cibersegurança estruturado, e meros 21% possuem políticas formais para o tema.
Os hackers mais sofisticados já deixaram de lado os métodos manuais tradicionais e passaram a empregar tecnologias disruptivas que subvertem a segurança corporativa a partir de dentro (insiders), agregando o acesso a megavazamentos, com bilhões de registros expostos. Os cibercriminosos agora utilizam IA avançada para realizar cruzamento e enriquecimento desses dados em massa. O resultado é a criação de identidades sintéticas perfeitas — perfis enriquecidos com documentos de comprovação de vida, amostras de voz e vídeos gerados por IA que são virtualmente indistinguíveis de pessoas reais. Essas identidades dão aos atacantes uma facilidade inédita para aprovar cadastros de crédito, enganar biometrias e aplicar fraudes tão convincentes que mesmo funcionários altamente treinados acabam sendo ludibriados.
A combinação de diferentes técnicas estabelece um novo marco, sem volta, como ocorre nos casos de ransomware baseados em IA, capazes de gerar scripts de criptografia multiplataforma de forma dinâmica e autônoma. Esses ataques utilizam grandes modelos de linguagem (LLMs) executados localmente para evitar a detecção na rede. Mais de 16% das violações corporativas envolvem o uso desse tipo de recurso por cibercriminosos. Esse ecossistema criminoso se apoia majoritariamente em campanhas de phishing com IA, responsáveis por 37% dos casos, e em técnicas refinadas de falsificação de identidade por meio de deepfakes, presentes em 35%, segundo dados da IBM compilados pela Experian.
Para escalar as funções de seus assistentes virtuais, as empresas começaram a permitir que agentes de IA instalem e usem as chamadas “habilidades” (skills) de terceiros, funcionando de forma muito parecida a aplicativos em um smartphone. No entanto, a pressa em automatizar gerou um ecossistema altamente inseguro, no qual 80% das habilidades têm algum desvio de integridade comportamental (ou seja, faziam coisas que não estavam declaradas em suas especificações e manuais).
Da mesma forma, os 67% dos funcionários das empresas, querendo ser eficientes, alimentam plataformas públicas de IA com dados sensíveis e códigos proprietários corporativos (fenômeno conhecido como Shadow AI), vazando dados sensíveis e códigos de programação, simplesmente para “agilizar” suas tarefas diárias.
O perigo reside no fato de os atacantes (representados pela fatia de 18,9% com intenção estritamente adversária, segundo pesquisa da Unit 42 da Palo Alto Networks) aprenderam a instrumentalizar este modus operandi. Eles se infiltram em ecossistemas de confiança por meio de engenharia social, usam personas falsas ou sequestram essas conexões, “facilitadas” pelos próprios funcionários, para roubar credenciais e exfiltrar dados em minutos. Assim, de forma totalmente involuntária, o colaborador brasileiro torna-se um participante ativo — e um facilitador silencioso — de ataques cibernéticos catastróficos.
Combater esse ecossistema exige uma abordagem em duas frentes. De um lado, defender-se da IA adversária por meio de políticas claras de governança, auditoria contínua de modelos e educação corporativa. Do outro, defender-se com IA: integrando agentes autônomos à arquitetura de defesa para antecipar comportamentos anômalos e orquestrar respostas incidentes na mesma escala e velocidade dos atacantes. Em última análise, a cibersegurança moderna não é mais sobre humanos contra máquinas, mas sobre a eficácia das diretrizes e da governança que os humanos estabelecem para as suas próprias máquinas.
Daniel Tupinambá, CISO da Elytron, conselheiro OAB-SP, JEx, Blueti
Líder e Conselheiro de negócios com vasta experiência em tecnologia e segurança cibernética, incluindo atuação em Big4. Desenhou e construiu práticas essenciais como governança corporativa, gestão de riscos empresariais, projetos de tecnologia e segurança.
Já atuou como conselheiro estratégico em diversas organizações e órgãos governamentais, como o Ministério da Justiça, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e diversos tribunais. Destacou-se como CISO Global na indústria aeroespacial, garantindo credenciamento em programas militares junto aos Ministérios da Defesa e Forças Aéreas do Brasil e Suécia. Liderou equipes multidisciplinares e desenvolvimento de novos negócios em fóruns executivos nos EUA, França, Portugal, Holanda e Singapura.
Experiência Internacional
Experiência global no desenvolvimento de projetos de segurança para IT, IOT e Telecom. Participou de eventos internacionais como: Interpol General Assembly (2025), Aviation Information Sharing Analysis Center (Genebra, 2017), Interpol World Congress (Singapura, 2017), RSA Conference (San Francisco, 2014 a 2017) e Critical Infrastructure Summit (San Diego, 2016).
