O mercado brasileiro entra em um novo ciclo de financiamento às empresas com R$ 7,2 trilhões em crédito ampliado, montante equivalente a 54,7% do PIB em junho. No agronegócio, o Plano Safra 2026/27 disponibiliza R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, sendo R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos. Só em julho, primeiro mês da nova safra, foram contratados R$ 28,2 bilhões, dos quais R$ 18,8 bilhões, ou 66,6%, passaram por CPRs. O movimento ocorre enquanto as garantias também avançam na política de crédito: medida provisória publicada em agosto autorizou até R$ 2 bilhões adicionais para o FGI e R$ 750 milhões para o FGO. Mais do que aumentar a oferta de recursos, esse novo ciclo coloca em evidência uma questão que ganha peso à medida que as operações crescem: como estruturar proteção para o capital concedido.
A Audax Capital, já movimentou mais de R$ 10 bilhões em operações de crédito em 11 anos, cresceu 115% em 2025 e projeta operacionalizar R$ 3,1 bilhões em 2026, avanço de 105%. Atualmente, 95% das operações contam com algum tipo de garantia, tendo duplicatas como principal ativo utilizado, seguido por ativos imobiliários. Para Pedro Da Matta, CEO da Audax Capital, a evolução do mercado exige que empresas e financiadores olhem além da capacidade imediata de pagamento. “Quando uma empresa organiza seus recebíveis, contratos e ativos antes de buscar capital, ela consegue construir uma operação mais completa. A garantia deixa de aparecer apenas no fim da análise e passa a fazer parte da própria arquitetura do crédito”, afirma.
O agronegócio ajuda a traduzir essa lógica. O novo El Niño encontra um mercado agrícola global com estoques elevados, maior produtividade e uma participação muito mais relevante do Brasil na oferta mundial. Esses estoques não impedem os efeitos do fenômeno climático, mas criam uma reserva capaz de amortecer parte das oscilações de produção e abastecimento. No crédito privado, a proteção funciona por outro caminho: recebíveis, contratos, imóveis, estoques e equipamentos podem ser vinculados à operação para criar alternativas de recuperação do capital caso o cenário esperado não se confirme. A comparação ganha relevância justamente porque a proteção não é construída quando o problema aparece. Ela precisa existir antes dele.
Essa mudança de lógica também amplia o valor financeiro de ativos que muitas empresas ainda enxergam apenas pela função operacional. Um fluxo recorrente de recebíveis, um contrato de longo prazo ou determinado patrimônio pode fazer parte da estrutura de uma captação e reduzir a dependência exclusiva da expectativa de pagamento futuro. Na Audax, duplicatas e imóveis, por exemplo, já representam 95% das garantias utilizadas nas operações, dado que ajuda a mostrar como o mercado começa a transformar ativos existentes em instrumentos de estruturação financeira. “O que os estoques agrícolas mostram diante do El Niño é um princípio que também vale para o crédito: capacidade de absorção precisa ser construída antes de ser necessária. A garantia não elimina o risco, mas cria uma segunda camada de proteção para uma operação que não pode depender apenas de um cenário perfeito”, conclui Pedro Da Matta.
