O agronegócio brasileiro sempre foi reconhecido pela eficiência dentro da porteira. Produzir em escala, investir em tecnologia, genética e sustentabilidade faz parte da rotina do setor. Mas ainda existe um desafio que ganha cada vez mais importância: transformar produção em marca, origem em valor e alimento em experiência.
Foi justamente nessa lacuna que nasceu a Del Veneto, frigorífico especializado em cortes premium de carne suína, sediado em São José dos Campos (SP). À frente da empresa está Flávia Brunelli, administradora, chef de cozinha e empreendedora reconhecida pela lista Forbes Under 30, que decidiu seguir um caminho pouco convencional: agregar valor a uma proteína historicamente tratada como commodity.
“O agro brasileiro faz um trabalho extraordinário dentro da porteira, mas comunica muito pouco tudo o que faz. Eu enxerguei justamente essa oportunidade: mostrar ao consumidor a história, o cuidado e a qualidade que existem por trás de cada produto”, afirma.
Raízes no campo, visão de mercado
A ligação com o agro começou muito antes do empreendedorismo. Descendente de uma família italiana ligada à suinocultura há quase um século, Flávia cresceu acompanhando a produção nas propriedades da família. No Brasil, viu de perto o trabalho do avô e da mãe, produtora rural e uma das poucas mulheres atuando em um setor predominantemente masculino.
Apesar da conexão com o campo, o plano inicial era outro. Formada em Administração, construiu carreira corporativa em uma multinacional e chegou a ser promovida, aos 22 anos, para coordenar operações na América Latina. O cargo representava exatamente o sonho profissional que havia alimentado desde a adolescência.
Mas foi justamente naquele momento que decidiu mudar completamente de direção: “Quando recebi a promoção, percebi que Deus estava me mostrando que existia um propósito maior. Recusei a promoção, pedi demissão e resolvi empreender.”
Antes de abrir a empresa, buscou uma segunda formação em Gastronomia. A decisão tinha um objetivo claro: compreender profundamente o mercado que pretendia atender.
“Eu precisava conhecer a cozinha profissional, entender a dor dos chefs e desenvolver produtos que realmente resolvessem essas necessidades”.
Muito além do preço
Fundada há nove anos, a Del Veneto, atualmente com 25 funcionários, nasceu focada em um segmento praticamente inexistente no país: cortes especiais de carne suína destinados à alta gastronomia. O modelo de negócio parte da produção familiar, utiliza genética diferenciada, com animais da raça Duroc, trabalha com cortes artesanais, embutidos naturais e defumação com lenha de jabuticaba.
O resultado é um produto de alto valor agregado, presente nas cozinhas de restaurantes estrelados e de alguns dos principais chefs brasileiros.
“Eu nunca quis competir por preço. Meu produto é diferente, minha matéria-prima é diferente, o processo é diferente. Quem procura apenas o menor preço não é o meu cliente”.
Enquanto uma carne suína convencional disputa espaço pelo custo, a empresa aposta na diferenciação. Os embutidos utilizam apenas carne e temperos naturais, sem adição de proteínas vegetais ou ingredientes normalmente presentes nos produtos industrializados.
“Não vendo apenas carne. Vendo origem, rastreabilidade, genética, sustentabilidade e uma experiência gastronômica”.
A estratégia adotada pela Del Veneto acompanha uma tendência observada em diferentes segmentos do agronegócio. Para Marco França, sócio-fundador da Auddas, consultoria em agronegócios, as empresas que conseguem construir marcas fortes deixam de competir apenas por preço e passam a entregar valor ao consumidor.
“Hoje não basta ter um porco melhor. Existe um conjunto de fatores que agrega valor: qualidade da criação, alimentação, sustentabilidade, bem-estar animal, relacionamento com chefs e posicionamento da marca. O consumidor compra essa combinação”.
Educar para vender
Uma das maiores apostas da empresária foi investir em educação de mercado. Além de produzir, ela passou a ensinar. Realiza workshops com chefs, leva cozinheiros para conhecer a fazenda, explica novos cortes e utiliza as redes sociais para mostrar processos produtivos, receitas e curiosidades sobre a carne suína:
“O consumidor precisa entender por que aquele produto é diferente. Quando mostramos tudo o que existe por trás da produção, o valor deixa de estar apenas no preço”.
Esse trabalho também ajuda a desconstruir antigos preconceitos associados à proteína:
“A carne suína mudou muito. Hoje falamos de qualidade nutricional, procedência, bem-estar animal e cortes extremamente sofisticados. Ainda existe desinformação sobre o produto”.
Na avaliação de França, esse movimento também ajudou a reposicionar a carne suína na gastronomia brasileira.
“Os chefs passaram a enxergar novas possibilidades gastronômicas e isso ajudou a quebrar paradigmas. O porco deixou de ser visto como uma proteína comum para ocupar espaço na alta gastronomia”.
Diferencial competitivo
A sustentabilidade também faz parte da estratégia da empresa. A propriedade familiar investe em geração própria de energia por biodigestores, manejo responsável e práticas de bem-estar animal, área na qual acaba de conquistar certificação específica.
Segundo Flávia, mais do que obter um selo, o desafio é comunicar ao consumidor tudo o que já acontece dentro da fazenda.
“As pessoas não compram apenas um produto. Elas compram uma história, um propósito e confiança”.
Logística, maior gargalo
Embora a capacidade industrial ainda tenha espaço para ampliar significativamente a produção, a expansão da empresa esbarra em um desafio conhecido por diversos negócios do agro premium, ou seja, a logística refrigerada.
Hoje, a Del Veneto atende principalmente restaurantes e varejos especializados em São Paulo, enquanto cresce a demanda de consumidores de outros estados.
“O maior desafio já não é produzir. É conseguir entregar pequenos volumes mantendo toda a cadeia refrigerada”.
Flávia pontua que ampliar a distribuição nacional exige investimentos em logística, centros de distribuição e novos parceiros comerciais antes mesmo de aumentar a capacidade fabril.
Da commodity à marca
A trajetória da empresa acompanha uma transformação importante no mercado de alimentos.Consumidores passaram a valorizar procedência, rastreabilidade, saudabilidade e produtos artesanais, abrindo espaço para nichos antes pouco explorados.
A pandemia acelerou esse movimento. Com restaurantes fechados, a empresa precisou criar rapidamente um modelo de atendimento ao consumidor final, iniciando operações de e-commerce e ampliando sua presença no varejo especializado.
“O consumidor começou a cozinhar mais em casa e passou a querer entender melhor aquilo que estava colocando no prato”. Hoje, esse comportamento se soma às tendências de alimentação saudável, consumo consciente e valorização das proteínas de qualidade.
Novos produtos e expansão
O portfólio continua crescendo. Entre os lançamentos estão salsichas artesanais inspiradas na tradição alemã, novos embutidos premium e um presunto cozido desenvolvido a partir de técnicas italianas.
Outro projeto em andamento é o lançamento de um livro de receitas dedicado exclusivamente à carne suína, reunindo preparações próprias e participações de chefs renomados.
Ao mesmo tempo, Flávia passou a compartilhar sua experiência em palestras e consultorias voltadas ao agronegócio, mostrando como produtores podem construir marcas fortes e agregar valor aos seus produtos.
“Minha missão é mostrar que o agro brasileiro pode comunicar melhor tudo aquilo que já faz com excelência”.
Juventude como desafio
Curiosamente, a maior barreira enfrentada por Flávia nunca foi ser mulher no agronegócio, a pouca idade despertava mais desconfiança do que o gênero.
“Quando eu dizia que tinha 23 ou 24 anos, muitas pessoas simplesmente não acreditavam na minha capacidade. Houve situações em que aumentei minha idade para conseguir ser levada a sério”.
Hoje, aos 32 anos, ela afirma que continua apostando na formação contínua e acredita que referências positivas fazem diferença na construção de lideranças.
“Meu maior aprendizado é que sempre existe alguém melhor do que você. Isso nos obriga a continuar estudando, evoluindo e melhorando”.
Para Marco França, o sucesso de uma empresa depende menos da origem das pessoas e mais da cultura construída internamente.
“Mais importante do que a origem das pessoas é a mentalidade. Resiliência, vontade de crescer, dedicação e capacidade de aprender fazem toda a diferença na construção de equipes de alta performance”.
Ele acrescenta que um dos maiores desafios do empreendedor é desenvolver lideranças capazes de sustentar o crescimento do negócio.
“O grande desafio de qualquer sócio é construir uma organização maior do que a própria figura do fundador. O sucesso acontece quando a empresa ganha autonomia e desenvolve novas lideranças”.
O futuro passa pela diferenciação
Nos próximos anos, os planos incluem ampliar a distribuição, fortalecer a logística, crescer no varejo especializado e continuar desenvolvendo produtos de alto valor agregado.
Mais do que expandir uma empresa, Flávia acredita estar contribuindo para uma mudança de mentalidade dentro do agronegócio.
“O Brasil já produz muito bem. Agora precisamos aprender a contar melhor nossas histórias. Quando mostramos tudo o que existe por trás do alimento, deixamos de vender apenas carne e passamos a entregar valor”.
Para ela, o futuro do agro brasileiro será construído pela combinação entre excelência produtiva, inovação, comunicação e conexão com o consumidor, uma equação que transforma commodities em marcas e produtores em protagonistas de um mercado cada vez mais orientado pela origem e pela qualidade.
Segundo França, esse movimento representa uma transformação que deve ganhar força nos próximos anos.
“Vivemos uma mudança de mentalidade. As pessoas querem comer melhor, entender a origem dos alimentos e reconhecer a diferença entre um produto realmente premium e outro que apenas utiliza uma embalagem sofisticada. O valor está em todo o cuidado que existe antes da embalagem chegar ao consumidor”.
E acentua que “produzir um excelente produto é diferente de operar varejo. Muitas empresas precisam primeiro fortalecer sua estrutura comercial, criar lideranças específicas e só depois avaliar novos canais de venda”.
A entrevista na íntegra foi gravada na Podfactory para o podcast De Dono para Dono.
