Em um momento em que a inteligência artificial já produz relatórios, cria apresentações, analisa dados e responde perguntas em segundos, muitas empresas começam a enfrentar um desafio menos tecnológico e mais humano que é o de garantir que as pessoas continuem exercendo sua capacidade de questionar, interpretar contextos e tomar decisões conscientes.
Para Denilson Shikako, CEO e fundador da Fábrica de Criatividade, a expansão da IA torna ainda mais relevante uma habilidade que nem sempre recebe a mesma atenção dedicada às competências técnicas: o pensamento crítico.
“A inteligência artificial ficou extremamente eficiente para responder ao ‘como fazer’. O que continua sendo uma responsabilidade humana é definir o ‘por que fazer’, avaliar consequências e questionar se determinado caminho realmente faz sentido para a organização”, esclarece.
Segundo Shikako, a discussão vai além do domínio de novas ferramentas. Em ambientes empresariais cada vez mais orientados por dados, automação e velocidade de execução, cresce a importância de profissionais capazes de analisar situações sob diferentes perspectivas, desafiar premissas estabelecidas e identificar riscos que nem sempre aparecem em uma resposta automatizada.
Essa reflexão também se conecta à forma como as culturas organizacionais são construídas. Para ele, os comportamentos que determinam a realidade de uma empresa nem sempre estão descritos em manuais ou apresentações institucionais.
“Muitas organizações afirmam valorizar inovação e autonomia, mas o que realmente molda a cultura são as atitudes reforçadas no dia a dia. Se as pessoas percebem que questionar gera desconforto ou que apenas a velocidade é recompensada, a tendência é reduzir o espaço para reflexão e criatividade”.
A preocupação encontra respaldo em estudos recentes sobre transformação do trabalho. Relatório do McKinsey Global Institute aponta que tecnologias como inteligência artificial, agentes autônomos e robótica possuem potencial técnico para automatizar 56% das horas de trabalho atualmente realizadas no Brasil. O mesmo levantamento indica que grande parte das atividades do futuro continuará exigindo capacidades humanas relacionadas a julgamento, interpretação de contexto, relacionamento e tomada de decisão.
Para Shikako, esse cenário confirma uma mudança importante, o diferencial competitivo tende a deixar de estar apenas na execução de tarefas e passar a incorporar competências ligadas à análise crítica e à reflexão.
“A primeira resposta costuma ser a mais rápida e confortável. A inovação frequentemente surge quando alguém decide buscar uma segunda resposta e perguntar se existe uma alternativa melhor. Empresas que estimulam esse comportamento fortalecem sua capacidade de aprendizado e adaptação”, afirma.
Outro ponto que ganha relevância com o avanço da tecnologia é a dimensão ética das decisões corporativas. Embora sistemas automatizados possam apoiar processos e gerar recomendações, continua sendo das lideranças e equipes a responsabilidade sobre os impactos de suas escolhas.
“Compliance, controles e tecnologia são fundamentais, mas confiança e integridade não se constroem apenas com monitoramento. Elas dependem da capacidade das pessoas de agir corretamente mesmo quando não existe supervisão direta”.
Para a Fábrica de Criatividade, o desafio das organizações não é escolher entre tecnologia e pessoas, mas desenvolver profissionais capazes de trabalhar com as novas ferramentas sem renunciar à capacidade de análise, reflexão e discernimento. “A tecnologia amplia nossa capacidade de execução. Mas continuam sendo as pessoas que definem prioridades, interpretam contextos e dão direção às decisões estratégicas. Quanto mais respostas a IA oferecer, mais valioso se tornará quem sabe formular as perguntas certas”, conclui Shikako.
