A inteligência artificial começa a ocupar os dois lados do mercado de trabalho. De um lado, empresas ampliam a procura por profissionais que saibam utilizar a tecnologia. Do outro, candidatos recorrem cada vez mais a ferramentas de IA para pesquisar oportunidades, revisar currículos, entender requisitos e se preparar para processos seletivos.
Levantamento do Infojobs mostra que as vagas que exigem conhecimento em inteligência artificial cresceram 99% entre maio de 2025 e maio de 2026, ultrapassando 2 mil oportunidades no período. O avanço ajuda a mostrar que a competência deixou de estar restrita às carreiras de tecnologia e começa a fazer parte das exigências de diferentes funções.
Ao mesmo tempo, a IA passa a interferir na própria forma como o profissional procura trabalho. Ferramentas generativas podem ajudar a interpretar uma descrição de vaga, identificar competências relevantes, organizar experiências anteriores e adaptar a apresentação profissional ao que determinada oportunidade exige.
Para Hosana Azevedo, gerente de RH da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, essa transformação exige que o candidato aprenda a usar a tecnologia sem transformar sua candidatura em um conteúdo genérico.
“A IA pode ajudar muito na organização das informações e na preparação do candidato, mas ela não deve criar uma trajetória profissional que não existe. O melhor uso acontece quando a tecnologia ajuda a traduzir experiências reais, identificar pontos de aderência com a vaga e tornar a comunicação mais clara, sem apagar a individualidade do profissional”, afirma.
Um dos usos mais simples acontece antes mesmo do envio do currículo. A descrição da oportunidade pode ser analisada com apoio da inteligência artificial para identificar palavras-chave, competências recorrentes, requisitos obrigatórios e conhecimentos considerados diferenciais.
A ferramenta também pode auxiliar profissionais que têm experiência relevante, mas encontram dificuldade para apresentá-la de maneira objetiva. Em vez de inventar habilidades, o candidato pode utilizá-la para reorganizar informações, reduzir repetições e destacar atividades ou resultados que tenham maior relação com a posição desejada.
Na preparação para entrevistas, a lógica é semelhante. A partir das características da vaga, a IA pode simular perguntas, ajudar a estruturar exemplos profissionais e apontar quais competências provavelmente serão exploradas pelo recrutador, permitindo uma preparação mais direcionada.
“O objetivo não deveria ser decorar respostas produzidas por uma ferramenta. Uma entrevista continua sendo um espaço de troca, em que o recrutador quer entender repertório, raciocínio e experiências reais. A IA pode ajudar na preparação, mas a conversa precisa continuar pertencendo ao candidato”, explica Hosana.
A tecnologia também começa a modificar a própria etapa de descoberta das oportunidades. O Infojobs já pode ser utilizado dentro do ChatGPT, permitindo que usuários pesquisem vagas da plataforma em formato conversacional. Para isso, o candidato conecta a aplicação do Infojobs Brasil e pode fazer uma busca indicando cargo e localização desejados. Os resultados encontrados direcionam para o site da plataforma, onde é possível concluir a candidatura.
Esse movimento aproxima a busca por emprego de um comportamento que já começa a aparecer em outras decisões do cotidiano, nas quais o usuário prefere descrever o que procura em linguagem natural em vez de navegar por diferentes filtros e páginas.
A mesma tecnologia pode ainda ser utilizada para comparar carreiras, identificar competências transferíveis e mapear lacunas de formação antes de uma mudança profissional. Um trabalhador que pretende migrar de área, por exemplo, pode comparar descrições de diferentes cargos e entender quais conhecimentos já possui e quais ainda precisa desenvolver.
O cuidado está em não transformar facilidade em automatização completa. Informações sobre experiência profissional, formação, idiomas, competências e resultados precisam permanecer verdadeiras, mesmo quando a apresentação desses dados recebe apoio da inteligência artificial.
Em um mercado no qual o conhecimento em IA aparece com frequência crescente nas próprias vagas, saber utilizar essas ferramentas tende a ganhar uma dupla função: pode ajudar o profissional durante a procura por emprego e, ao mesmo tempo, tornar-se uma competência valorizada pelas empresas.
Para Hosana, esse movimento coloca o uso consciente da tecnologia no centro da discussão.
“A tendência não é simplesmente substituir uma etapa da busca por emprego pela IA, mas incorporar a ferramenta à jornada. Quem aprende a utilizá-la como apoio para pesquisar, organizar informações e tomar decisões pode ganhar eficiência sem perder aquilo que continua sendo essencial em qualquer processo seletivo: repertório, experiência e autenticidade.”
