Anúncios fraudulentos que simulavam programas como Desenrola Brasil, Sistema Valores a Receber e CNH Brasil foram identificados no Google Ads mesmo com anunciantes que apareciam como verificados pela plataforma. O levantamento do NetLab, da UFRJ, encontrou 69 peças desse tipo entre 12 e 25 de agosto, direcionando usuários para sites falsos. O caso ganhou repercussão após reportagens em portais como o UOL sobre as campanhas fraudulentas.
Os anúncios utilizavam elementos visuais associados ao governo federal e foram impulsionados por 44 anunciantes, com direcionamento para 35 sites diferentes. Segundo o Google, a empresa utiliza inteligência artificial e revisores humanos para monitorar a publicidade e, em 2025, bloqueou ou removeu 374 milhões de anúncios no Brasil e suspendeu 1,3 milhão de contas. A própria empresa explica como funciona o sistema de verificação e combate a anúncios nocivos.
O estrategista e mentor de agências Robson V. Leite, especialista em crescimento, performance e gestão de operações digitais, analisa o impacto do caso para empresas e profissionais que trabalham com mídia paga.
“Quando uma campanha é veiculada, existe uma expectativa básica de que o ambiente publicitário tenha algum nível de controle e segurança. O caso mostra que não basta olhar para alcance ou custo por clique. Existe também uma dimensão de qualidade, reputação e segurança que precisa entrar na gestão da mídia”, afirma Robson V. Leite.
Performance não pode ser o único indicador
O levantamento identificou anúncios que reproduziam marcas e símbolos do governo para induzir usuários a acessar páginas fraudulentas. Entre eles, havia 50 peças relacionadas ao Desenrola Brasil, 17 ao Sistema Valores a Receber e duas à CNH Brasil. O levantamento do NetLab detalha os anúncios, anunciantes e sites identificados.
Para as agências, situações desse tipo reforçam a necessidade de olhar além dos indicadores tradicionais de desempenho.
“Uma campanha pode ter CTR excelente, custo baixo e muita conversão e ainda assim estar criando um problema enorme para a marca. Quando a empresa compra mídia, também está escolhendo um ambiente, uma audiência e um contexto. Segurança e reputação precisam fazer parte dessa análise, especialmente quando existe automação envolvida”, explica o especialista.
O que muda para quem administra campanhas?
O episódio também expõe a complexidade da relação entre plataforma, anunciante, agência e consumidor. O Google afirma que a verificação serve como uma camada adicional de segurança, com confirmação de identidade e informações comerciais. A empresa também mantém uma Central de Transparência de Anúncios, que permite consultar campanhas de anunciantes verificados.
Mesmo assim, o caso mostra que a verificação de identidade não significa que todo anúncio daquele anunciante seja necessariamente legítimo. Essa diferença é importante para empresas que administram campanhas próprias ou de clientes.
“A agência não pode assumir que a plataforma verificará tudo por ela, assim como o cliente não pode imaginar que contratar mídia é apenas colocar dinheiro em uma conta e esperar resultado. É preciso estabelecer processos de conferência, acompanhar os destinos dos anúncios e ter critérios claros para aprovação. Escala sem controle pode transformar um ganho de performance em um problema de reputação”, ressalta Robson V. Leite.
O episódio reforça uma mudança no mercado: conforme a publicidade digital se torna mais automatizada, gestão de mídia deixa de ser apenas uma questão de performance e passa também por governança da operação.
