Os investimentos em publicidade digital no Brasil chegaram a R$ 42,7 bilhões em 2025, alta de 12,7%, segundo o estudo Digital Adspend 2026, do IAB Brasil em parceria com o Ibope. Parte desse dinheiro movimenta um setor tecnológico pouco conhecido fora das empresas de marketing: o rastreamento das interações que permitem identificar quais anúncios resultam em vendas.
É nesse segmento que a Wascer, plataforma de infraestrutura para coleta de dados e rastreamento server-sides, sediada em Varginha (MG), pretende ampliar sua atuação e competir com fornecedores internacionais, apoiada em um projeto de inovação de R$ 1,25 milhão.
Henrique Reis, CEO da Wascer, e sócio de um data center no Sul de Minas Gerais, aposta na integração entre software e infraestrutura física como diferencial competitivo.
“As empresas investem milhões em publicidade, mas nem sempre conseguem enxergar com precisão o que esse dinheiro trouxe de resultado. Nosso trabalho é reduzir essa distância entre o investimento realizado e as informações que chegam aos gestores”, explica.
O problema ocorre quando uma pessoa clica em um anúncio, acessa uma loja virtual e conclui uma compra, mas parte dessas informações não chega corretamente aos sistemas de publicidade. Bloqueadores de anúncios, restrições dos navegadores e limitações de cookies podem comprometer os registros, dificultando a avaliação dos resultados das campanhas.
A Wascer utiliza processamento pelo servidor para reduzir essas perdas e encaminhar dados de conversão às plataformas de publicidade. O objetivo é aumentar a consistência das informações utilizadas pelos anunciantes, respeitadas as exigências legais de privacidade e proteção de dados.
A disputa pela infraestrutura dos dados
O desenvolvimento dessa tecnologia coloca empresas brasileiras em concorrência com fornecedores internacionais especializados em rastreamento digital. Entre os nomes identificados no projeto da Wascer estão a Stape e a AddingWell, que oferecem soluções voltadas à coleta e ao processamento de informações publicitárias.
Para Henrique, a disputa vai além do preço ou das funcionalidades oferecidas. “Estamos competindo com empresas de tecnologia da Europa e dos Estados Unidos em um setor que exige conhecimento técnico e investimento pesado em infraestrutura. O Brasil tem capacidade para desenvolver essas soluções, sem ficar restrito ao papel de consumidor de tecnologia estrangeira”, afirma.
A estratégia da companhia mineira é ampliar sua capacidade de controlar as diferentes etapas desse processo, desde a recepção das informações até seu tratamento e análise. A empresa mantém uma estrutura de data center em Varginha, no Sul de Minas Gerais. Para expandir a capacidade tecnológica da Wascer, o projeto prevê investimentos em servidores, automação e inteligência artificial, destinados ao processamento e à análise de dados de diferentes fontes.
A integração também tem uma consequência econômica. Ao combinar hospedagem, capacidade computacional e software, a empresa pretende agregar serviços de maior valor à infraestrutura digital, em vez de depender exclusivamente da comercialização de capacidade de processamento.
Projeto busca financiamento para expansão
A proposta de inovação da Wascer, estruturada pela Sourei para o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), prevê investimento de R$ 1,25 milhão, dos quais R$ 1 milhão seriam obtidos por meio do programa Pró-Inovação. Os R$ 250 mil restantes correspondem à contrapartida prevista da empresa. A operação ainda depende de aprovação e contratação.
Os recursos serão destinados à aquisição de equipamentos, desenvolvimento tecnológico, contratação de profissionais especializados e capital de giro associado. O plano estabelece um período de 12 meses para estruturar a infraestrutura, desenvolver novos módulos e validar a plataforma para expansão comercial.
Segundo o BDMG, a instituição liberou R$ 700 milhões em financiamentos para projetos inovadores entre 2024 e 2025. Para Henrique, ampliar a capacidade tecnológica exige investimentos que nem sempre apresentam retorno imediato. “Desenvolver um software próprio não termina quando ele começa a funcionar. É preciso investir em servidores, segurança, pesquisa e capacidade de processamento para que a solução consiga atender mais clientes sem perder desempenho”, ressalta.
Tecnologia desenvolvida fora dos grandes centros
O projeto prevê a continuidade da cooperação com o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), campus Varginha, para o desenvolvimento e validação de algoritmos de inteligência artificial. A proposta contempla pesquisas aplicadas, testes tecnológicos e a participação de estudantes da instituição nas atividades relacionadas à plataforma.
A expectativa é transformar essa capacidade técnica em um produto com alcance nacional e potencial de expansão internacional. “Não precisamos estar em São Paulo ou fora do Brasil para desenvolver tecnologia capaz de competir globalmente. O desafio é transformar conhecimento e infraestrutura em soluções que possam ganhar escala. É isso que estamos construindo”, conclui Henrique.
