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    Home»Últimas»Do alimento popular ao produto premium: o que está mudando no mercado de sardinhas no Brasil?
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    Do alimento popular ao produto premium: o que está mudando no mercado de sardinhas no Brasil?

    Mercado brasileiro de sardinhas enlatadas, estimado em US$ 91 milhões em 2025, deve alcançar US$ 108 milhões até 2032
    JoaoBy Joao15 de setembro de 2026Nenhum comentário5 Mins Read
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    Por décadas, a sardinha em lata foi sinônimo de uma proteína acessível, prática e presente na despensa do brasileiro. O produto continua cumprindo esse papel, mas números recentes mostram uma mudança no mercado. Além do preço e da conveniência, fatores como valor nutricional, procedência, qualidade da matéria-prima e novas formas de consumo começam a ampliar as possibilidades da categoria e a abrir espaço para produtos de maior valor agregado.

    Entre 2022 e 2025, o consumo de sardinha enlatada no Brasil cresceu 19%, segundo dados da Scanntech divulgados pela Seafood Brasil. O movimento chama atenção quando comparado a outras categorias tradicionais da cesta do brasileiro: no mesmo período, o consumo de massa instantânea recuou 16% e o de açúcar caiu 14%, por exemplo.

    O movimento ganhou força em 2026. Em julho, a categoria de sardinhas enlatadas registrou crescimento de 28,4% em faturamento e de 15,1% em unidades vendidas na comparação com o mesmo mês de 2025, segundo o Radar Scanntech. O desempenho ocorreu na contramão da cesta de mercearia, que recuou 0,2% em valor e 3,4% em unidades no mesmo período. A diferença entre os indicadores mostra que a alta da categoria não veio apenas dos preços: houve aumento efetivo da quantidade de sardinhas adquiridas pelos consumidores.

    O avanço acontece dentro de um mercado relevante para a indústria de alimentos. O segmento brasileiro de pescados em conserva movimentou cerca de US$ 1,85 bilhão em 2025, segundo estimativas da Grand View Research. Para 2026, a projeção é de aproximadamente US$ 1,92 bilhão, podendo alcançar US$ 2,27 bilhões até 2033.

    Quando o recorte considera especificamente a sardinha enlatada, a Wresearch estima que o mercado brasileiro, avaliado em aproximadamente US$ 91 milhões em 2025, alcance US$ 108 milhões até 2032. A procura por alimentos nutritivos, convenientes e versáteis aparece entre os fatores associados ao desenvolvimento da categoria nos próximos anos.

    A expansão, porém, não significa que a sardinha esteja deixando para trás sua característica popular. O que começa a mudar é a diversidade de propostas disponíveis dentro da própria prateleira. Se historicamente a decisão de compra esteve fortemente relacionada ao preço e à praticidade, o consumidor encontra hoje produtos que também buscam se diferenciar pela origem do pescado, tipo de preparo, ingredientes utilizados na conserva, apresentação e posicionamento da marca.

    É nesse cenário que empresas tradicionais do setor enxergam espaço para agregar valor a um alimento já consolidado no cotidiano. É o caso da portuguesa Ramirez, fundada em 1853 e considerada uma das mais antigas empresas de conservas de pescado em atividade. Aos 173 anos, a companhia permanece sob o comando da quinta geração da família e produz cerca de 50 milhões de latas por ano em sua unidade de Matosinhos, em Portugal. Aproximadamente 60% da produção é destinada à exportação para mais de 50 países.

    No Brasil, a estratégia da companhia passa pela diferenciação por meio da origem e da qualidade da matéria-prima. A proposta é disputar não apenas o espaço tradicional de uma proteína prática e conveniente, mas também atender ao consumidor que considera procedência, textura, sabor e tradição produtiva no momento da compra.

    “Durante muito tempo, a conserva foi percebida principalmente pela praticidade. Isso continua sendo importante, mas hoje encontramos um consumidor que quer entender melhor o que está levando para casa. A origem do pescado, a qualidade da matéria-prima e a maneira como o produto é preparado passam a fazer parte dessa escolha”, afirma Manuel Ramirez, presidente do conselho de administração da companhia e representante da quinta geração da família.

    A movimentação do mercado brasileiro também envolve um desafio anterior à chegada do produto às prateleiras: o abastecimento da indústria. Documento publicado em 2026 pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) registra solicitação do setor para manutenção da redução a zero do Imposto de Importação para uma quota de 120 mil toneladas de sardinha congelada.

    Entre as justificativas apresentadas está a necessidade de complementar a oferta nacional de matéria-prima para atender à capacidade da indústria conserveira. A discussão evidencia uma particularidade do mercado brasileiro: ao mesmo tempo em que a sardinha mantém seu papel como uma proteína de amplo consumo, o setor precisa equilibrar produção nacional, importações e demanda da indústria.

    Esse cenário ajuda a explicar por que diferentes posicionamentos começam a coexistir dentro da mesma categoria. A sardinha continua presente nas refeições rápidas e receitas cotidianas, mas também ganha espaço em preparações mais elaboradas e em produtos que apostam em ingredientes, procedência, qualidade e apresentação como elementos de diferenciação.

    Para Manuel Ramirez, essa coexistência é uma das características do novo momento do mercado.

    “A sardinha não precisa deixar de ser um alimento democrático para ganhar valor. Existe espaço para diferentes propostas dentro da categoria. O consumidor pode buscar praticidade em um momento e, em outro, valorizar origem, sabor e uma experiência diferente com o mesmo pescado”, afirma.

    O movimento brasileiro acompanha uma transformação mais ampla na percepção das conservas. A lata, historicamente associada à praticidade e à longa duração, passa a dialogar também com tendências de alimentação equilibrada, conveniência e gastronomia. Para uma indústria que combina empresas centenárias e novos hábitos de consumo, o desafio está em atualizar a percepção de um produto conhecido há gerações sem perder características que ajudaram a popularizá-lo.

    Os números de 2026 mostram que há espaço para essa transformação. Mais do que deixar de ser popular para se tornar premium, a sardinha começa a ocupar diferentes posições no mercado brasileiro, mostrando que preço, praticidade, qualidade e maior valor agregado podem dividir a mesma prateleira.

    Alimentação consumo cultura economia mercado notícias Sardinha
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