A relação de Cris Bertolucci com o design começa cedo, guiada pelo interesse por arte, forma e arquitetura. A graduação em Desenho Industrial pela Universidade Mackenzie, em 1981, introduziu fundamentos que mais tarde seriam refinados durante sua imersão na Università Internazionale dell’Arte, em Firenze. O período na Itália despertou uma sensibilidade mais profunda para a luz, seus efeitos e sua vocação narrativa.
De volta ao Brasil, Cris atuou por 25 anos na Bertolucci, empresa fundada por seu pai, Walter Bertolucci. Ali consolidou conhecimento técnico e artístico sobre iluminação decorativa. Em 2010, fundou o Cris Bertolucci Estúdio, inaugurando uma produção independente, autoral e sensível, voltada à pesquisa luminosa e ao encontro entre materiais e expressão.
Desde 2023, sua filha Giovanna Bertolucci passou a integrar de forma ativa a equipe criativa, participando do desenvolvimento das peças e acompanhando diferentes etapas do processo de criação. Sua colaboração fortalece a continuidade da trajetória construída por Cris Bertolucci, ampliando o diálogo entre herança familiar, experimentação material e evolução criativa que orientam sua produção.
PESQUISA EM MATERIALIDADE E A POESIA DA LUZ
A pesquisa de Cris Bertolucci parte da luz como matéria conceitual que molda atmosferas. Seu trabalho nasce da combinação entre precisão e sensibilidade, onde o industrial encontra o artesanal e a técnica se converte em linguagem. A designer investiga como a luz atravessa superfícies e texturas, revelando movimentos, sombras e brilhos que se transformam conforme o olhar.
A designer explora como diferentes superfícies, opacas, translúcidas, irregulares ou densas, acolhem, filtram ou devolvem o brilho. Em suas luminárias, a luz não apenas incide, ela respira, contorna, curva-se e se dissipa no espaço, criando ambientes que alternam densidade e leveza. Cada criação se torna um estudo sensorial, onde o claro e o difuso constroem paisagens visuais.
Cris transita entre técnicas ancestrais e processos contemporâneos para compor uma identidade que une forma, função, rigor formal e estética. Suas obras iluminam ambientes e percepções, tornando visível o que vibra entre a matéria e a poesia.
PROCESSOS ARTÍSTICOS E RIGOR CONSTRUTIVO
No estúdio, o metal ocupa um lugar central na construção formal das peças. Cris Bertolucci transforma a fundição, historicamente industrial, em gesto autoral. O processo começa com moldes criados a partir de elementos naturais ou objetos selecionados pela designer. Esses modelos são envolvidos por uma areia especial, compactada e endurecida com ar, até formar duas metades simétricas. Após de retirada a matriz, abrem-se canais por onde o bronze ou o cobre incandescente irá fluir.
Quando o metal é vertido, o molde se desfaz, assegurando que cada obra seja única. Após o resfriamento, surgem formas brutas, densas e texturizadas. A lapidação ocorre em etapas sucessivas de polimento manual, que revelam profundidade e brilho. Soldas discretas são integradas ao conjunto e o acabamento devolve unidade e luminosidade ao metal. A partir dessa manualidade rigorosa, Cris expandiu seu repertório para mesas, luminárias e objetos escultóricos, afirmando o metal como matéria expressiva.
Para além do bronze e do alumínio, a designer cultiva uma curiosidade constante por outras materialidades, ampliando seu vocabulário sensorial. Folhas naturais tratadas artesanalmente se transformam em couro vegetal, filtrando o brilho com delicadeza irregular. A resina mineral, moldada e polida, dá origem a volumes translúcidos que acolhem movimentos internos de luz.
Papéis japoneses produzidos à mão difundem a luminosidade de modo suave e contínuo, enquanto a porcelana se ilumina de dentro para fora, oferecendo um brilho quase líquido. Já o acrílico, com sua precisão gráfica, reflete e refrata feixes luminosos, criando transições nítidas entre sombra e claridade.
Seja no metal, na folha, na resina, no papel, na porcelana ou no acrílico, permanece a intenção de compreender como a luz encontra sentido na matéria. Essa poética da transformação, ora insinuando brilho, ora conduzindo sombras, ora devolvendo reflexos, dá origem a um universo plural e sensível, que expressa a identidade criativa e artística do estúdio.
COLEÇÕES | LUZ, MATÉRIA E EXPERIÊNCIA ESPACIAL
Em 2026, Cris Bertolucci Estúdio participa da 22ª edição da SP-Arte com Corpos de Luz, exposição que reúne três séries inéditas, Vitória, Garoa e Takai, dedicadas à investigação da luz como elemento estruturante.
VITÓRIA | LINHO COMO FILTRO TÊXTIL DA LUZ
Inspirada pelos universos da arte, da arquitetura e da moda, Vitória explora o linho como matéria luminosa e sensível. A superfície maleável atua como filtro que suaviza e difunde a luminosidade, instaurando uma relação direta entre corpo, vestimenta e arquitetura. Amarrações aparentes, franzidos e sobreposições revelam o gesto manual e a construção têxtil das peças, criando luminárias que transitam entre objeto escultórico, vestimenta do espaço e arquitetura luminosa.
GAROA | CRISTAL SOPRADO E REFRAÇÃO
Em Garoa, o cristal soprado assume protagonismo, dialogando com a tradição vidreira do Vêneto e com a herança italiana da designer. Produzidas pela técnica baloton, as peças apresentam pequenas esferas em relevo que ampliam e dissolvem os efeitos de refração da luz. Nas versões pendentes e arandelas, os volumes translúcidos evocam gotas suspensas, captando e multiplicando feixes luminosos em superfícies vibrantes que transformam o espaço em experiência óptica e contemplativa.
TAKAI | BAMBU, ELEVAÇÃO E ARQUITETURA LUMINOSA
Na série Takai, o bambu surge como elemento estrutural e poético. Flexível e resistente, organiza luminárias que se expandem verticalmente e desenham gestos amplos no espaço. Inspirada pela relação sensível das culturas orientais com a natureza, a coleção investiga configurações leves e permeáveis nas quais luz, matéria e arquitetura se articulam como experiência habitável. Pendentes, estruturas arqueadas e luminárias de piso que também funcionam como biombo configuram objetos mutáveis, nos quais a luz se manifesta como matéria viva.
COLEÇÕES SELECIONADAS
GOMA | GEOMETRIA TRANSLÚCIDA E REFRAÇÃO
Inspirada no Art Déco, Goma estuda o comportamento da luz em blocos de resina mineral translúcida e fosca. À medida que o observador se move, a luminosidade interna se revela ou se oculta, criando um jogo sutil de profundidade. O nome remete às balas de goma, evocando seu aspecto opaco e denso. A coleção combina pureza geométrica, rigor industrial e leveza luminosa.
AMAZÔNICA | A LUZ FILTRADA PELA NATUREZA
A série utiliza folhas reais da espécie Orelha de Elefante, transformadas artesanalmente em couro vegetal. As nervuras e transparências preservadas conferem autenticidade e singularidade às peças. Estruturas em bronze fundido sugerem caules que emergem suavemente da água, acentuando a memória botânica e presença escultórica.
SERENA | A LEVEZA DO PAPEL E A HARMONIA DIFUSA
Produzida com papel japonês translúcido, Serena explora a relação entre silêncio, luz e contemplação. Junco natural, metal e latão estruturam pendentes e abajures que reúnem delicadeza artesanal e proporção geométrica. As peças criam atmosferas suaves, quase meditativas.
CORAL | PORCELANA COMO CORPO LUMINOSO
Desenvolvida em parceria com a artista Núria Roso, Coral apresenta porcelanas iluminadas que revelam brilho íntimo e texturas inspiradas em superfícies marinhas e minerais. A coleção destaca a força escultórica da porcelana quando atravessada pela luz. A série reforça a vocação artística do estúdio.
PLATINA CELESTE | LUMINOSIDADE CÓSMICA E NEOBARROCO INDUSTRIAL
Platina Celeste explora atmosferas lunares, galácticas. Luminárias e mesas criadas em latão cromado, alumínio prateado e acrílico transparente exibem tons prateados e azuis celestes, construindo uma estética que une o brilho tecnológico ao ornamentado do neobarroco industrial. Retrofuturistas, as peças parecem pertencer ao espaço sideral, combinando inovação e complexidade ornamental.
ADOBE, SLIM E MAX | BRONZE FUNDIDO E MEMÓRIA DA TERRA
Adobe nasce de um bloco de argila modelado à mão pela designer, posteriormente fundido em bronze. A coleção evoca a ancestralidade dos antigos tijolos de adobe, traduzida em luminárias, colunas, abajures e no banco escultórico Adobe Max. As versões Slim e Max desdobram essa matriz inicial em diferentes escalas. A série une rusticidade e força material em linguagem contemporânea.
LAGO | SUPERFÍCIES METÁLICAS E PAISAGENS LÍQUIDAS
Lago explora a plasticidade do alumínio moldado à mão e do bronze fundido para criar mesas, bandejas e elementos de parede que evocam lâminas d’água. Suas formas remetem a espelhos líquidos, margens e ondulações. A coleção carrega o gesto inicial da modelagem da argila, transformado em superfícies metálicas fluidas.
COLHEITA | FORMAS DA NATUREZA E ESCULTURA EM METAL
Em Colheita, frutas, sementes e legumes tornam-se matrizes que dão origem a objetos escultóricos, em bronze e alumínio, preservando texturas, sulcos e irregularidades. Cada objeto materializa o encontro entre o gesto espontâneo da colheita e a potência estrutural do metal.
RELEVÂNCIA NACIONAL E PRESENÇA INTERNACIONAL
A atuação de Cris Bertolucci articula presença consistente no cenário brasileiro e inserção crescente no circuito internacional do design autoral. No Brasil, o estúdio mantém participação recorrente na SP-Arte, com cinco edições até 2026, consolidando sua atuação em um campo que aproxima arte, design e arquitetura.
No exterior, a produção recente amplia esse diálogo por meio de participações na Paris Design Week, em 2024, e na exposição Héritage Culturel et Savoir-Faire, realizada na Embaixada do Brasil em Paris, em 2025. Em 2026, o estúdio integrou o Piloto Milano, mostra do circuito 5VIE durante o Fuorisalone, em Milão, Itália, reforçando sua presença no cenário internacional contemporâneo.
Paralelamente, Cris Bertolucci atua como voz ativa nas discussões sobre o papel do design como linguagem estética e poética, tendo participado, em 2025, do talk Fronteiras do Design, promovido pela Casa Vogue.


