A inovação em uma indústria de chás nem sempre começa pelo lançamento de um novo sabor. Na Chás Real, empresa familiar paranaense cuja marca remonta a 1834, os últimos dois anos foram dedicados a rever receitas, ajustar ingredientes e melhorar a experiência de consumo dos produtos que já estavam nas prateleiras. Esse trabalho ocorre em um período de instabilidade nos negócios, mas setembro trouxe um resultado positivo: segundo o CEO Henrique Fontana, a receita do mês cresceu 18% em relação a setembro de 2025.
O avanço representa uma recuperação mensal em um ano que o executivo descreve como uma “montanha-russa”. O indicador se refere ao desempenho da própria empresa e, oferece um sinal favorável para uma fabricante que escolheu concentrar parte de seus esforços no aperfeiçoamento do portfólio.
“Nos últimos dois anos, a gente focou na melhoria da qualidade das fórmulas”, afirma Fontana. Segundo ele, a decisão foi trabalhar sobre o que a empresa já oferecia, com uma revisão que envolveu tanto o conteúdo dos produtos quanto o visual das embalagens.
A estratégia coloca em discussão uma dimensão menos visível da inovação na indústria de alimentos e bebidas: a reformulação de produtos conhecidos pelo consumidor. No caso da Chás Real, o processo partiu também de críticas recebidas pelo próprio CEO e passou por provas e ajustes nas combinações de ingredientes.
Um dos exemplos é o chá de morango. Fontana conta que comentários de amigos e clientes o levaram a experimentar o produto com mais atenção. A avaliação revelou uma distância entre o sabor anunciado e a experiência na xícara.
“O morango, quando você provava, não tinha gosto de morango. A fórmula era muito antiga”, relata.
Na revisão, o executivo identificou ingredientes que, em sua avaliação, prejudicavam o resultado. Entre eles estava a casca de laranja, que conferia amargor à mistura. O componente foi retirado, e diferentes variações foram testadas até chegar a uma nova formulação.
O mate com canela também passou por ajustes. Já o chá de frutas vermelhas está, segundo Fontana, em sua sexta versão, resultado de alterações realizadas ao longo dos anos. Os exemplos mostram que a composição de um produto pode continuar em desenvolvimento mesmo depois de sua chegada ao mercado. “Fizemos um pente-fino nos últimos dois anos nas fórmulas, juntamente com a mudança no visual das embalagens”, diz o CEO.
O catálogo de 2026 apresenta a extensão desse portfólio. O mate aparece em versões a granel e em sachês, com opções natural, limão, pêssego, canela, guaraná e laranja com cravo. A linha de ervas e flores reúne ingredientes tradicionais, como camomila, capim-cidreira, erva-doce, hortelã e melissa, além de combinações como camomila com maçã, anis-estrelado com erva-doce e cúrcuma com gengibre.
Há ainda misturas de frutas, incluindo morango, maçã vermelha, frutas vermelhas e frutas silvestres, além de chá preto e diferentes versões de chá verde. A empresa também mantém produtos para chimarrão e tereré sob a marca Gaúcho, e erva-mate Fontana, marca mais antiga comercializada no Brasil.
Essa variedade reúne sabores tradicionais e combinações que ampliam as possibilidades de escolha. No catálogo, parte delas aparece organizada em uma linha de bem-estar, com produtos como Bom Descanso, Suave Noite, Suave Carinho e amora com hibisco.
Fontana destaca o Bom Descanso, composto por melissa, polpa de maracujá e capim-cidreira, entre os produtos desenvolvidos pela empresa. Também menciona a combinação de cúrcuma, gengibre e pimenta-preta e o chá verde com hibisco. Segundo o executivo, a formulação com cúrcuma foi desenvolvida com apoio de pesquisas científicos. Ele esclarece ainda que, embora apareça na seção de ervas e flores do catálogo, o produto integra a proposta de bem-estar da marca.
É nesse contexto que a alta de setembro ganha relevância. O crescimento de 18% sobre o mesmo mês do ano anterior ocorre enquanto a Chás Real procura fortalecer produtos já conhecidos, corrigir pontos identificados pelos consumidores e atualizar sua apresentação. O resultado mensal ainda precisa ser acompanhado ao longo do tempo, mas registra uma recuperação em um ano marcado, segundo a direção, por oscilações.


