Especialista aponta pós e contras diante das novas leis em discussão que determinam o futuro para pessoas com deficiência no Brasil e no Reino Unido
Engenheiro químico, empresário e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência, Bruno Contesini observa com atenção os recentes movimentos do Brasil e do Reino Unido no campo da inclusão. Em comum, as duas nações vivem momentos decisivos: enquanto o Brasil busca atualizar sua legislação e fomentar o empreendedorismo entre pessoas com deficiência, o Reino Unido enfrenta incertezas sobre a manutenção de direitos educacionais fundamentais.
Para Contesini, que tem mobilidade reduzida após a realização de 24 cirurgias desde o seu nascimento devido a uma má-formação, a aprovação da Lei 15.155, sancionada pelo presidente Lula com vetos no início de julho, representa um importante passo não apenas de inclusão, mas também de desenvolvimento para o país. Dos muitos pontos trazidos pela Lei, a inclusão educacional e o incentivo ao empreendedorismo devem permitir que as Pessoas com Deficiência desenvolvam a plenitude do seu potencial, alcancem os seus sonhos mais ousados e contribuam com o Brasil de diversas formas.
A nova lei determina que o poder público deve promover ações específicas para apoiar pessoas com deficiência no mercado de trabalho, inclusive com criação de linhas de crédito. Além disso, reforça a importância da acessibilidade em vias públicas e edifícios, além de proporcionar maior atenção à educação hospitalar. Mas alguns dispositivos foram vetados, como a menção à antiga Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde) e propostas de matrícula compulsória no ensino regular.
“Eu mesmo sou um claro produto da educação e do empreendedorismo! Ter tido a possibilidade de acessar grandes centros educacionais permitiu que eu reunisse condições de empreender, com isso, explorar novos horizontes e hoje viver o sonho de ajudar como posso toda a comunidade de Pessoas com Deficiência. Quem sabe, no futuro, a Lei 15.155 nos permita construir histórias semelhantes, e quem sabe, tenhamos um número muito maior de pessoas engajadas com o bem da comunidade de Pessoas com Deficiência, e de forma mais ampla, de todo o Brasil”, destaca Bruno.
Enquanto o Brasil ajusta sua legislação, o Reino Unido vive um momento tenso, com discussões sobre possíveis cortes nos direitos educacionais de crianças com necessidades especiais, que historicamente se apoiam em planos de educação individualizados (EHCPs). Medidas em estudo pelo novo governo trabalhista têm gerado forte reação de famílias, educadores e entidades. Uma campanha nacional também foi lançada para defender a manutenção desses direitos.
“É muito preocupante ver países considerados referência em políticas sociais cogitarem recuar em garantias básicas”, afirma Contesini. “A desculpa da contenção de gastos não pode ser usada para tirar o direito de aprender, de se desenvolver, de existir plenamente”.
Contesini defende que o Brasil aprenda com os erros alheios e avance na inclusão com base em três pilares: fiscalização efetiva, aplicação de penalidades e educação inclusiva desde os primeiros anos de ensino. Ele cita o caso recente de Chen Li Cheng, presidente da ONG “Incluir Petrópolis”, que foi impedido de participar de um evento na sede da OAB da cidade por falta de acessibilidade. “A desculpa de que o prédio é antigo é usada há décadas. Mas pessoas com deficiência não podem esperar a próxima reforma”.
Segundo o empresário, o debate educacional também precisa evoluir. “Muitos estudantes com deficiência estão nas escolas, mas continuam invisíveis. Estar na sala de aula não é suficiente se não há mediação adequada, estrutura, acolhimento. A inclusão verdadeira exige investimento e vontade política”, observa.
Esse ponto tem sido amplamente debatido no ciclo de audiências públicas do Senado sobre o novo Plano Nacional de Educação (PNE). Representantes de diferentes entidades ressaltaram que a simples matrícula não garante aprendizagem. Contesini concorda: “A escola precisa se adaptar ao aluno, e não o contrário. E isso vale para todas as deficiências, tanto físicas, intelectuais quanto sensoriais”.
Com um currículo que inclui formações na USP, MIT, Harvard e Ibmec, Bruno Contesini usa sua trajetória para inspirar e cobrar mudanças. “Eu tive acesso a recursos que a maioria não tem. Por isso, minha responsabilidade é devolver. A clínica Glannos, que estou engajado atualmente, será um espaço onde a inclusão será vivida na prática, não apenas no discurso”.
Ele reforça que, apesar dos avanços legislativos recentes, tanto no Brasil quanto no exterior, ainda há um abismo entre o que está no papel e o que se vive nas ruas, nas escolas, nas empresas. “Não estamos falando de favores ou caridade. Estamos falando de direitos constitucionais. A inclusão não pode ser refém do orçamento ou da conveniência”, conclui.
Em tempos de promessas e tensões políticas, vozes como a de Bruno Contesini ajudam a lembrar que acessibilidade e inclusão não são temas laterais, e, sim, são centrais para qualquer sociedade que se pretenda justa.
Sobre a Clínica Glannos:
Nascida da experiência transformadora de seu fundador, o empresário Bruno Contesini, a futura Clínica Glannos, em São Paulo, representa um novo olhar sobre a reabilitação integral. Com previsão de inauguração em 2025, o centro reunirá desde terapias convencionais até abordagens inovadoras em um ambiente acolhedor.
O projeto já está mudando vidas: enquanto a sede física é construída, pacientes recebem atendimento gratuito em unidades parceiras. O processo é simples – cadastro online com envio de documentos médicos.
“Mais que tratamentos, oferecemos possibilidades de recomeço”, destaca Bruno. Com capacidade para centenas de atendimentos mensais, a Glannos planeja expandir seu modelo humanizado para todo o Brasil.
Aos que desejam ser futuros pacientes do local, o cadastro deve ser feito no site glannos.org, com envio de laudo médico e triagem por um comitê técnico. A meta inicial é realizar 6.000 sessões mensais gratuitas, com planos de expansão para outros estados e uma escola adaptada para pessoas com limitações.
“Quem depende de reabilitação merece um tratamento digno. Seu imposto pode ser a esperança que falta”, finaliza Contesini.
