Grandes companhias renegociam bilhões em dívidas, milhares de empresas estão em recuperação judicial e a inadimplência empresarial atinge níveis preocupantes. Especialista alerta: o problema pode estar muito mais perto das empresas aparentemente saudáveis do que muitos empresários imaginam.
Casas Bahia, Raízen, Braskem, GPA, Oncoclínicas, Tok&Stok, AgroGalaxy e Marabraz.
Os nomes, setores e tamanhos são diferentes. Mas todos ajudam a revelar um problema que começa a ganhar dimensão preocupante no Brasil: o caixa das empresas está sob pressão.
Enquanto grandes grupos recorrem à recuperação judicial ou extrajudicial para renegociar bilhões de reais em dívidas, milhões de pequenos e médios negócios também enfrentam dificuldades para manter suas contas em dia.
Em julho de 2026, o Brasil chegou à marca de 9,2 milhões de empresas inadimplentes, que acumulavam aproximadamente R$ 238,6 bilhões em dívidas. Desse total, cerca de 8,7 milhões eram micro e pequenas empresas.
O problema, portanto, não está restrito às gigantes que aparecem nas manchetes.
Ele pode estar chegando silenciosamente ao caixa de milhares de empresas brasileiras.
Mas o que está realmente acontecendo?
Para o contador, auditor e consultor empresarial Andrew Moro, fundador da MORO Consultoria Contábil, Tributária e Auditoria, o país enfrenta uma combinação especialmente perigosa para as empresas.
“Estamos juntando vários ingredientes que pressionam exatamente o mesmo lugar: o caixa. Juros elevados, crédito caro, endividamento acumulado, margens menores, aumento de custos, inadimplência dos clientes e complexidade tributária. Individualmente, uma empresa pode conseguir administrar cada um desses problemas. Quando eles chegam juntos, o risco aumenta significativamente”, afirma Moro.
O perigo pode estar escondido atrás do faturamento
Um dos maiores riscos é que uma empresa em dificuldade financeira nem sempre parece estar em crise.
Ela continua vendendo.
Continua emitindo notas fiscais.
Continua contratando.
E, em alguns casos, até apresenta lucro na demonstração de resultado.
Enquanto isso, silenciosamente, começa a consumir seu próprio capital de giro.
A empresa aumenta o limite bancário, antecipa recebíveis, posterga fornecedores, parcela impostos e utiliza novos empréstimos para pagar compromissos antigos.
Quando o empresário percebe, o problema operacional já se transformou em uma crise financeira.
“Empresa não quebra por falta de faturamento. Empresa quebra por falta de caixa. É perfeitamente possível uma companhia faturar milhões e apresentar lucro contábil, mas não ter dinheiro para pagar os compromissos que vencem amanhã”, alerta Moro.
O crédito pode transformar dificuldade em crise
Quando o caixa deixa de ser suficiente, normalmente existe uma porta de emergência: o banco.
O problema é que essa porta está cara.
Empresas que antes utilizavam crédito pontualmente podem passar a depender permanentemente de capital de giro, antecipação de recebíveis, conta garantida e renegociação de dívidas.
E começa um ciclo perigoso:
menos margem gera menos caixa; menos caixa exige mais crédito; mais crédito gera mais juros; mais juros reduzem novamente a margem e o caixa.
A empresa começa a trabalhar cada vez mais para financiar sua própria dívida.
“Existe um momento em que o empresário deixa de tomar crédito para crescer e passa a tomar crédito para sobreviver. Esse é um dos sinais mais perigosos que podemos encontrar dentro de uma empresa”, afirma Moro.
Recuperação judicial é o último capítulo, não o primeiro
Quando uma grande empresa anuncia uma recuperação judicial, a notícia ganha manchetes.
Mas a recuperação judicial normalmente não é o início da crise.
É o momento em que uma crise construída durante meses ou anos finalmente se torna pública.
Antes disso, os sinais já estavam aparecendo nos números.
A dívida cresce.
A despesa financeira aumenta.
A margem diminui.
Fornecedores começam a receber mais tarde.
Tributos são parcelados.
Recebíveis são antecipados com frequência.
E empréstimos novos começam a ser utilizados para pagar dívidas antigas.
“Quando a recuperação judicial vira notícia, a crise financeira daquela empresa normalmente começou muito antes. O problema é que muitos empresários só percebem a gravidade quando falta dinheiro na conta.”
O imposto é parte do problema — mas não explica tudo
A elevada carga e, principalmente, a complexidade tributária brasileira fazem parte dessa equação.
Mas atribuir a situação atual exclusivamente aos impostos seria ignorar uma combinação muito maior de fatores.
Juros, crédito, custos trabalhistas, logística, câmbio, energia, inadimplência, queda de demanda, baixa produtividade e decisões empresariais também interferem diretamente na capacidade de uma companhia gerar caixa.
Cada setor possui ainda seus próprios problemas.
No varejo, juros elevados atingem simultaneamente consumidor e empresa.
No agronegócio, crédito, clima, preços das commodities e endividamento formam outra equação.
Na indústria, câmbio, energia, logística, importações, produtividade e competitividade internacional pesam nas decisões de investimento.
“O imposto pesa. O juro pesa. O custo pesa. O problema é quando tudo pesa ao mesmo tempo sobre uma empresa que já não tem margem financeira para absorver novos impactos.”
Multinacionais também estão revendo suas operações
Outro sinal que merece atenção vem das decisões de grandes grupos internacionais.
Em 2026, a fabricante alemã Haribo encerrou sua operação industrial em Bauru, no interior paulista. Ao comunicar a decisão, a empresa mencionou questões relacionadas à competitividade, ao ambiente de negócios e à sustentabilidade da operação brasileira.
Outras multinacionais também vêm reorganizando portfólios, fábricas e estruturas locais, embora cada decisão tenha razões próprias e não possa ser atribuída exclusivamente à tributação ou à economia brasileira.
Para Moro, entretanto, existe uma mensagem importante por trás desses movimentos.
“Capital compara países. Uma empresa analisa retorno, risco, custo de capital, tributação, segurança jurídica, produtividade e infraestrutura antes de decidir onde colocar o próximo investimento. O Brasil não disputa capital apenas dentro das suas fronteiras.”
E 2027 está chegando
Se o cenário atual já exige atenção, uma nova transformação está prestes a entrar no radar das empresas: a Reforma Tributária.
A partir de 2027, começa uma etapa decisiva da transição para o novo sistema de tributação do consumo.
Empresas precisarão rever sistemas, contratos, formação de preços, margens, aproveitamento de créditos tributários e planejamento financeiro.
E, ao longo da implantação do novo modelo, outro mecanismo merece especial atenção: o split payment, que permitirá a segregação de IBS e CBS dentro do fluxo financeiro das operações.
Na prática, empresas que atualmente utilizam o intervalo entre receber uma venda e recolher seus tributos como parte do capital de giro precisarão avaliar como seu caixa funcionará quando esse dinheiro deixar de permanecer disponível pelo mesmo período.
“A Reforma Tributária chega justamente quando muitas empresas já estão financeiramente pressionadas. Para quem tem caixa, governança e planejamento, é uma transição administrável. Para quem já está operando no limite, qualquer mudança relevante no ciclo financeiro pode aumentar a pressão.”
O próximo problema pode já estar dentro do balanço
O grande risco para 2027 talvez não esteja apenas nas empresas que já entraram em recuperação judicial.
Pode estar nas companhias que ainda parecem saudáveis.
Empresas que faturam mais, mas geram cada vez menos caixa.
Que apresentam lucro, mas aumentam a dívida.
Que cresceram, mas financiaram esse crescimento integralmente com capital de terceiros.
Que antecipam recebíveis todos os meses apenas para conseguir pagar a folha, fornecedores e impostos.
Esses sinais podem ser identificados antes que a crise chegue ao banco.
DRE, balanço patrimonial, fluxo de caixa, endividamento, margem, capital de giro e geração operacional de caixa precisam ser analisados conjuntamente.
“O empresário não pode esperar faltar dinheiro para descobrir que tem um problema financeiro. Quando o saldo bancário dá o alerta, muitas vezes o balanço já vinha avisando há meses.”
Para Moro, a pergunta que empresários deveriam fazer neste momento não é simplesmente se suas empresas estão dando lucro.
A pergunta é outra:
Se as vendas caírem, o crédito ficar mais caro ou o capital de giro diminuir, por quantos meses a empresa consegue sobreviver?
A resposta pode separar as empresas que apenas atravessarão um período econômico mais difícil daquelas que poderão aparecer nas próximas manchetes de recuperação judicial.
“Crises empresariais raramente começam com um pedido de recuperação judicial. Elas começam silenciosamente, quando a empresa passa a consumir mais caixa do que consegue gerar. E é justamente nesse momento que ainda existe tempo para agir.”
