O Brasil bateu recorde de inadimplência em 2026. Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa Experian, o país soma 81,7 milhões de pessoas negativadas, salto de 38,1% em dez anos, com dívidas somando R$ 539 bilhões e média de R$ 6.598,13 por consumidor.
O comprometimento de renda das famílias endividadas chega a 70,5%, e sobe para 90,1% entre quem ganha até um salário mínimo. Mais grave: 42% desses inadimplentes, cerca de 34 milhões de pessoas, já estavam negativados há dez anos, sinal de que o endividamento no país é crônico, não pontual.
Esse cenário caminha ao lado de outro problema estrutural: o baixo domínio do brasileiro sobre as próprias finanças. A 17ª edição do Observatório Febraban mostra que 55% dos brasileiros afirmam entender pouco ou nada de educação financeira, e 61% recorrem com frequência ou eventualmente a alguma forma de crédito.
Entre quem tem dívidas, 39% dos entrevistados, 77% dizem que isso afeta diretamente sua saúde emocional ou qualidade de vida. Os dois indicadores caminham juntos: sem preparo para lidar com o próprio orçamento, o crédito deixa de ser ferramenta de planejamento e passa a ser recurso emergencial repetido.
Desenrola Brasil
Para tentar conter esse quadro, o Governo Federal lançou em maio de 2026 o Novo Desenrola Brasil (Medida Provisória nº 1.355/2026), com descontos de até 90% para dívidas de quem ganha até cinco salários mínimos, parcelamento em até 48 vezes e uso de parte do FGTS para quitação. Na primeira edição do programa, entre 2023 e 2024, cerca de 15 milhões de brasileiros renegociaram R$ 53 bilhões em dívidas atrasadas.
O programa devolve fôlego ao orçamento das famílias, mas atua sobre o estoque de dívidas já contraídas, não sobre o fluxo de renda nem sobre o nível de educação financeira da população. Sem esses dois fatores resolvidos, o risco de reincidência no endividamento permanece.
Dívida Pública Federal
Ao ampliar a lente para um aspecto mais macro e observar como está a saúde financeira da União, temos também um panorama alarmante financeiramente.
Segundo o Relatório Mensal da Dívida do Tesouro Nacional, em uma década, a dívida pública brasileira saltou de R$ 2,88 trilhões em maio de 2016 para R$ 9,03 trilhões em maio de 2026, sendo a última publicação oficial disponível, o que representa um crescimento expressivo de 213,76% no período de dez anos.
Esse número mostra que a população brasileira lida com um baixo nível de educação financeira, ao mesmo tempo em que se endivida cada vez mais. A União, por sua vez, cria programas para alívio financeiro do cidadão, ainda que tenha severos problemas com sua própria gestão financeira.
Aposentado
Dentro desse cenário, é ainda mais complexa a análise quando o olhar se volta aos beneficiários do INSS. A pesquisa da Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, mostra que 50% dos aposentados brasileiros já recorreram a crédito para pagar contas e despesas básicas, não por consumo, mas por necessidade.
Além disso, de acordo com a pesquisa, 60% dos aposentados gastam boa parte da renda com alimentação, com saúde e remédios (55%). E, ainda que já aposentados, 46% relatam instabilidade financeira e 60% seguem trabalhando, a maioria (63%) por necessidade de complementar a renda.
Conectando com os números trazidos quanto à questão das dívidas, o risco de endividamento é uma preocupação para 44% desse público, e quitar dívidas é prioridade para 40% deles.
O fim do crédito consignado
É justamente neste cenário de vulnerabilidade que o crédito consignado, historicamente a alternativa mais barata para o público idoso, passa por severas restrições.
Embora a nova política preveja que o teto total de comprometimento da renda do beneficiário com linhas consignadas permanecerá fixado em 45%, a distribuição dessa margem será alterada com a saída programada do cartão.
O desenho estipula a manutenção de 35% destinados exclusivamente aos empréstimos pessoais tradicionais, 5% direcionados para as operações do cartão de crédito consignado convencional e os 5% restantes alocados para o cartão de benefício.
Para a PrecPago, empresa especializada na antecipação de precatórios federais no Brasil, essa reorganização e o fim progressivo do modelo de cartões podem gerar um impacto adverso.
A companhia analisa que a extinção gradual dessas modalidades retira uma fonte de liquidez de custo acessível da população vulnerável, limitando a capacidade de manobra do idoso para cobrir despesas básicas indispensáveis, como saúde e alimentação, como foi apontado ser comum pelos dados do Serasa.
O ano de 2027 pode ser um ano de mudança para o público previdenciário, exigindo maior planejamento dos gastos mensais e a busca por alternativas financeiras que sejam sustentáveis no longo prazo.
Embora o cartão consignado continue disponível e operacional durante as etapas iniciais de transição, a sinalização clara de sua extinção demonstra que o ecossistema de crédito bancário para aposentados e pensionistas está se tornando estruturalmente mais restritivo.
