O mercado brasileiro de automação industrial está deixando para trás um modelo protegido e concentrado no consumo interno para avançar em direção a um cenário de mais abertura, maior intensidade tecnológica e crescente demanda por IA industrial, operações remotas e capacidades de engenharia local. Essas são as principais conclusões do estudo Brazil’s Industry – The Dawn of a New Era (Indústria brasileira – o início de uma nova era) da ARC Advisory Group, principal consultoria global em tecnologia para indústria, energia e infraestrutura, segundo a qual o Brasil está se tornando um mercado de automação industrial estrategicamente importante, com oportunidades em petróleo e gás, biocombustíveis, setor automotivo e alimentos e bebidas, entre outras áreas.
Em 2025, registrou-se um crescimento de 10% no mercado brasileiro combinado de automação de processos e manufatura discreta, referente a tecnologias, softwares e equipamentos usados para automatizar a fabricação de itens individuais que podem ser contados um a um, como veículos, celulares e eletrodomésticos. Com essa expansão, bem superior à média mundial, o segmento foi avaliado em US$ 3,5 bilhões no período, prevendo-se um avanço de 5% em 2026 (US$ 3,67 bilhões). Para 2030, a expectativa é atingir US$ 4,6 bilhões.
Atualmente, a automação de processos predomina e representa aproximadamente 80% dos investimentos, enquanto a manufatura discreta, que inclui os setores automotivo, de alimentos e bebidas, embalagens e máquinas, pode ganhar força à medida que as barreiras comerciais diminuem e os fabricantes se modernizam.
Oportunidades em áreas estratégicas
A indústria de petróleo e gás, especialmente nas operações offshore, representa um dos principais motores da automação de processos. A complexidade dos ativos e os requisitos de segurança impulsionam soluções de operação remota, manutenção preditiva, controle avançado e monitoramento com IA, e empresas brasileiras já desenvolvem iniciativas avançadas de transformação digital.
Os biocombustíveis são outro diferencial competitivo importante, depois que a indústria nacional de etanol à base de cana-de-açúcar criou um ecossistema interno maduro em torno de combustíveis alternativos, operações de processo e know-how industrial. O desempenho de algumas organizações e empresas demonstra que o Brasil não está apenas buscando alcançar os padrões internacionais e já opera com alto nível de sofisticação técnica em segmentos selecionados.
Os setores químico e petroquímico também refletem a transição da automação tradicional para operações orientadas por dados, o que amplia as oportunidades em sistemas de execução da manufatura (MES), análise avançada e IA industrial. Vários exemplos apontam para uma oportunidade mais ampla para fornecedores de MES, soluções de análise, contextualização de dados, gestão de desempenho de ativos e plataformas de IA industrial.
Na manufatura discreta, o setor automotivo é o maior segmento, e estatísticas de produção da Organização Internacional de Fabricantes de Veículos Automotores (OICA) mostram que o Brasil está entre os principais produtores globais. Embora a automação de processos domine os gastos do setor no Brasil, a manufatura discreta é estrategicamente importante e pode crescer mais rapidamente à medida que o cenário comercial se transforma.
Tecnologia e capacidade local
A ARC ressalta que o ecossistema brasileiro de automação é mais robusto do que muitos observadores externos imaginam. Fornecedores internacionais, empresas nacionais de tecnologia e integradores experientes compõem um ecossistema que favorece a concorrência e a realização de parcerias, enquanto a engenharia local é essencial na execução dos projetos.
Entre as tecnologias que devem orientar os próximos investimentos estão IA industrial e análise de dados, operações remotas, modernização de sistemas de controle distribuído (DCS), sistemas MES e soluções de Indústria 4.0. A automação aberta e interoperável ganha importância por permitir arquiteturas modulares e reduzir a dependência de fornecedores específicos. Serviços de ciclo de vida, modernização de equipamentos e suporte local também devem ser prioridades.
“A inteligência artificial e o controle avançado de processos já estão produzindo resultados concretos na indústria. Temos aplicações capazes de reduzir em até 60% a variabilidade de processos e gerar economias da ordem de US$ 140 mil por ano, por equipamento”, afirma Danilo de Faria, executivo da gigante Nestlé na área de automação e transformação digital.
Segundo ele, o desafio agora é ampliar a adoção dessas tecnologias.
“Eventos como o ARC Industry Leadership Forum* [10 a 12 de novembro, Rio de Janeiro] são importantes para compartilhar experiências e acelerar essa transformação”, completa Faria, que participará do evento.
“Há mais de 25 anos os fóruns ARC Industry Leadership reúnem as lideranças do setor. Agora, essa comunidade global se encontra pela primeira vez no Brasil para falar sobre o que já é uma realidade na indústria. Não é mais uma conferência sobre o futuro. É um fórum sobre o que a indústria precisa fazer agora”, destaca Craig Resnick, vice-presidente do ARC Advisory Group.
O estudo da ARC também indica que o ecossistema de automação do Brasil apresenta um cenário diversificado, com fornecedores globais, especialistas locais e fortes capacidades de integração de sistemas. As capacidades locais de engenharia e integração são fundamentais, uma vez que muitos projetos brasileiros são de grande porte, complexos e exigem implementação intensiva.
Ao mesmo tempo, a escala econômica e a diversidade industrial do Brasil criam condições para ampliar seu papel internacional. A abertura comercial, incluindo a redução gradual de tarifas prevista no acordo entre União Europeia e Mercosul, tende a intensificar a concorrência e a pressão por eficiência, criando oportunidades e desafios para fabricantes e fornecedores de tecnologia.
Para a ARC, o Brasil deve ser tratado como um mercado estratégico de crescimento, e não mais como um país emergente e periférico. Os fornecedores com mais potencial de sucesso serão aqueles capazes de combinar portfólios globais com serviços, engenharia e implementação locais e adaptar soluções às necessidades objetivas da indústria nacional.
