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    Selic, custo de ocupação e o desafio de decidir em um mercado imobiliário mais restritivo

    Por Gerson Rodrigues, sócio-diretor responsável pelo departamento de Tenant Representation da RealtyCorp
    JoaoBy Joao16 de setembro de 2026Nenhum comentário4 Mins Read
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    A taxa Selic é frequentemente analisada como um indicador macroeconômico, mas seus efeitos sobre o mercado imobiliário corporativo são bastante concretos. Em um cenário de juros elevados, o impacto não está apenas no custo de financiamento. Ele aparece na decisão de investir, na capacidade de expansão das empresas, na oferta de novos empreendimentos e, consequentemente, na formação dos preços de locação.

    Com a Selic em 14% ao ano, o custo de oportunidade do capital se tornou uma variável decisiva para as empresas. Uma companhia que avalia a mudança para um novo escritório precisa considerar não apenas o aluguel, mas também o investimento necessário para adequar o espaço.

    Esse cálculo muda a lógica da decisão. Se, para viabilizar o investimento, a empresa precisar recorrer a crédito com custo elevado, manter os recursos aplicados pode parecer financeiramente mais racional. É nesse ponto que os juros deixam de ser uma variável abstrata e passam a interferir diretamente na estratégia imobiliária das organizações.

    Há, porém, um efeito menos evidente desse cenário: os juros elevados também podem restringir a oferta futura. Com capital mais caro e custos de construção pressionados, novos projetos tendem a ser postergados. Menos oferta, em um mercado que mantém demanda por espaços de qualidade, significa menor disponibilidade e maior pressão sobre os preços.

    É justamente essa combinação que merece atenção para 2027. Mesmo que a Selic comece a recuar, o mercado imobiliário corporativo não necessariamente responderá de forma imediata. O ciclo de decisão de um empreendimento é longo, e uma redução dos juros precisa ser acompanhada por melhora nas condições de crédito, retomada dos investimentos e maior previsibilidade econômica para produzir efeitos relevantes sobre a oferta.

    Do lado das empresas, portanto, esperar por um cenário perfeito pode não ser a melhor estratégia. Em determinados mercados, a redução da vacância já limita as alternativas disponíveis. Uma companhia que precisa de 5 mil metros quadrados, por exemplo, encontra hoje um universo de opções muito mais restrito. Para demandas de 10 mil metros quadrados ou mais, essa dificuldade é ainda maior.

    O componente comportamental também não pode ser ignorado. Em períodos de incerteza, algumas empresas preferem esperar para tomar decisões. Outras fazem justamente o contrário: antecipam movimentos para evitar enfrentar, mais adiante, menor disponibilidade e custos superiores. É uma espécie de FOMO imobiliário, em que o receio de perder uma boa oportunidade acelera a tomada de decisão.

    Por isso, olhar apenas para a Selic é insuficiente. O desempenho do mercado corporativo também depende de emprego, crédito, endividamento empresarial e saúde financeira das companhias. O aumento das recuperações judiciais, especialmente em setores mais pressionados, pode resultar em inadimplência, devolução de áreas e mudanças na dinâmica de ocupação.

    Para 2027, o principal desafio será justamente entender como essas variáveis vão se combinar. Uma eventual queda dos juros será positiva, mas não resolverá isoladamente as restrições de oferta, os custos de construção e a pressão sobre o preço dos imóveis.

    O Brasil também precisa transformar oportunidades estruturais em investimentos concretos. O mercado de data centers é um exemplo. A demanda global por infraestrutura digital abre uma oportunidade relevante para o país, mas sua concretização depende de segurança jurídica, previsibilidade regulatória e condições capazes de atrair capital privado.

    No fim, o mercado imobiliário corporativo reflete o ambiente econômico mais amplo. Para que empresas voltem a investir com maior confiança e novos empreendimentos sejam viabilizados, precisamos de previsibilidade. A redução sustentável dos juros é parte importante dessa equação, mas precisa vir acompanhada de responsabilidade fiscal, crédito e um ambiente de negócios que estimule o investimento.

    Para as empresas que precisam tomar decisões imobiliárias, a mensagem é igualmente objetiva: em um mercado de baixa vacância e oferta restrita, adiar uma decisão também tem um custo. E ele pode ser maior do que o custo de decidir agora.

    economia Infraestrutura Mercado Imobiliário notícias Setor Corporativo Taxa Selic
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