Nos últimos anos, a educação financeira ganhou espaço no Brasil. Nunca se falou tanto sobre reserva de emergência, diversificação, renda fixa, ações ou fundos de investimento. Influenciadores financeiros acumularam milhões de seguidores, conteúdos sobre investimentos continuam dominando as redes sociais e uma nova geração de brasileiros passou a discutir o tema até em roda de bate-papo entre amigos.
Esse avanço é extremamente positivo. Mas ainda existe uma contradição pouco discutida: enquanto aprendemos a investir melhor, continuamos tomando decisões ruins quando o assunto é crédito.
O resultado aparece nas estatísticas. Segundo levantamento mais recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida. E a maior parte dos brasileiros segue recorrendo ao rotativo do cartão de crédito, cheque especial e empréstimos de curto prazo com juros extremamente elevados.
Essas linhas são utilizadas porque são as mais conhecidas, acessíveis ou simplesmente as únicas que o consumidor sabe que existem.
O cenário revela uma falha importante na forma como a educação financeira foi construída no país. Ensinamos as pessoas a buscar os melhores rendimentos para seu dinheiro, mas dedicamos pouca atenção ao custo do dinheiro que elas tomam emprestado.
Na prática, alguém que consegue aumentar a rentabilidade dos seus investimentos em alguns pontos percentuais ao ano pode celebrar uma boa decisão financeira. Porém, uma pessoa que substitui uma dívida com juros de três dígitos anuais por uma linha mais barata pode gerar um impacto muito maior no próprio patrimônio. Ainda assim, o segundo tema raramente recebe a mesma atenção. Essa distorção ajuda a explicar o atual paradoxo: o brasileiro está endividado, mas sentado sobre patrimônio.
Ao longo das últimas décadas, o imóvel se consolidou como uma das principais formas de construção de riqueza das famílias. Tornou-se símbolo de segurança, estabilidade e conquista patrimonial. O problema é que, para grande parte dos brasileiros, esse patrimônio permanece completamente desconectado da estratégia financeira da família.
Enquanto isso, milhões de pessoas enfrentam dificuldades para reorganizar dívidas, financiar educação, investir em seus negócios ou atravessar períodos de instabilidade financeira. Muitas recorrem às linhas mais caras disponíveis simplesmente porque desconhecem alternativas.
Em países desenvolvidos, o patrimônio imobiliário faz parte da engrenagem financeira das famílias e pode ser utilizado para gerar liquidez em momentos estratégicos da vida. No Brasil, essa lógica ainda engatinha, em parte por desconhecimento e em parte por uma percepção cultural que associa qualquer uso do imóvel como garantia a um risco excessivo.
O resultado é que milhões de brasileiros continuam pagando algumas das taxas mais altas do mundo enquanto mantêm patrimônio acumulado sem qualquer papel na reorganização da própria vida financeira.
Sem dúvida, a educação financeira brasileira avançou muito ao ensinar as pessoas a investir. O próximo passo é ensiná-las a tomar crédito. Porque, em muitos casos, a diferença entre enriquecer e empobrecer não está no rendimento dos investimentos, mas no custo das dívidas.
Caio Alfano é sócio e Chief Growth Officer (CGO) da FlowCredi, marketplace de soluções de crédito com garantia.
