Lidar ou trabalhar os impactos que a internet e as redes sociais causam nas emoções pessoais de crianças e adolescentes têm se tornado um desafio. O neurocientista Marcelo Del Padre, especialista gestionado pelo Grupo CALONE®, diz que o uso excessivo pode afetar diretamente o equilíbrio emocional devido a alta liberação da dopamina – um neurotransmissor relacionado à recompensa e ao prazer. Para ele, as curtidas e comentários nas postagens podem criar uma busca constante por validação, levando à ansiedade e ao estresse quando a aceitação on-line não é alcançada. “A neurociência nos ensina que o cérebro é suscetível a padrões de recompensa, e as redes sociais podem se tornar uma fonte viciante de gratificação instantânea”, comenta. Marcelo mostra que existe o chamado FOMO ou Fear of Missing Out (Medo de Perder Algo, em tradução livre). Trata-se de um fenômeno psicológico relacionado à ansiedade que se manifesta quando as pessoas têm medo de perder oportunidades, eventos ou experiências que outras estão desfrutando. Esse fenômeno é particularmente associado ao uso das redes sociais e à constante exposição a eventos e atividades compartilhadas por outros. “Com as redes sociais e a conectividade digital, as pessoas estão constantemente expostas a informações sobre o que seus amigos, colegas e conhecidos estão fazendo. Isso cria uma sensação de estar sempre por fora do que está acontecendo. Esse fenômeno muitas vezes é alimentado pela tendência natural de comparar nossa vida com a vida dos outros”, aponta.
Ele destaca que as pessoas veem fotos, atualizações de eventos, atividades que parecem divertidas, interessantes e se comparam a elas. Del Padre argumenta que a pressão social para participar de atividades e eventos divulgados nas redes sociais também pode ser intensa, pois as pessoas podem sentir que precisam estar presentes em tudo o que é mostrado, mesmo que não tenham um interesse genuíno na atividade, aumentando os níveis de ansiedade, inquietação, inadequação e frustração. Ele ressalta que crianças e adolescentes podem acreditar que estão perdendo experiências significativas ou que sua vida não é tão emocionante quanto a dos outros. Marcelo fala que tudo isso cria um círculo vicioso, pois há a necessidade constante de verificar as redes sociais, podendo levar ao vício em tecnologia e ao uso excessivo de celulares ou computadores. Para Del Padre, é importante desenvolver a consciência de que as redes sociais muitas vezes mostram uma versão idealizada da vida das pessoas e que a realidade é mais complexa.
O neurocientista acredita que é fundamental estabelecer limites no uso das redes sociais, trazendo-os à consciência plena, ajudá-los a focar nas próprias necessidades e interesses em vez de se comparar aos outros. Ele pontua que isso pode levar a um aumento considerável do estresse, da ansiedade e da depressão, afetando diretamente a saúde mental. “A psicologia positiva destaca a importância das emoções positivas, do otimismo e do bem-estar emocional. Embora as redes sociais possam ser uma fonte de conexão e apoio social, o excesso de uso e a exposição constante a notícias negativas podem prejudicar o equilíbrio emocional. É essencial reconhecer os efeitos e buscar um equilíbrio saudável no uso das redes sociais para proteger a saúde mental”, alerta.
Internet no cotidiano também pode trazer benefícios
Para o neurocientista Marcelo Del Padre, a internet é como um universo de conhecimento esperando para ser explorada. Se usada com sabedoria e de maneira equilibrada, ela pode fazer maravilhas na vida de crianças e adolescentes, estimulando áreas cerebrais ligadas à aprendizagem, resolução de problemas e criatividade. Ele recorda que durante o período da pandemia da Covid-19, o poder da conexão permitiu que crianças e adolescentes assistissem aulas on-line, efetuando pesquisas, criando suas próprias histórias, música, arte e uma infinidade de outras matérias. Se elencamos as boas possibilidades da internet, temos a chance de conhecer pessoas e culturas de todo o mundo; ajudando no desenvolvimento de relacionamentos, diversidade e, principalmente, da empatia. A web é o lugar para compartilhar a criatividade e sentir-se realizado. Quer estudar qualquer matéria, aprender uma nova língua, desenvolver uma habilidade? Ela é uma biblioteca infinita à sua disposição. Crianças podem acessar livros, filmes e todo tipo de material de pesquisa. A internet é como um tutor virtual pronto para ajudar nos estudos. No entanto, Del Padre faz uma ressalva que como qualquer coisa na vida, o equilíbrio é fundamental. “É como ter uma janela imensa para o mundo. De um lado a criança ou adolescente tem acesso a tudo. Só não podemos esquecer que o mundo também tem acesso a eles”, elucida.

Reflexões
Segundo o neurocientista, o cérebro humano cresce até os 25 anos. De acordo com ele, pode-se afirmar que a infância e a adolescência são períodos importantíssimos de desenvolvimento emocional e intelectual. “A internet pode ser um ótimo treino para o cérebro, porém passar muito tempo on-line pode afetar a capacidade de se prestar atenção no momento presente, afetando diretamente a memória e os relacionamentos”, pontua. Marcelo esclarece que durante a infância, o cérebro é como uma esponja e absorve tudo o que vemos, sentimos, ouvimos e tocamos. Isso ocorre porque nosso fator crítico passa a ter mais força no final da primeira infância. Esse filtro passa então a “escolher” quais os tipos de informações ou sugestões que podem ou não entrar em nosso subconsciente. Até os 6 anos, ainda não temos o fator crítico a todo vapor. É muito provável que as sugestões, emoções e eventos tenham acesso direto ao subconsciente (nossa memória emocional, que representa 95% da mente humana), promovendo assim novas programações emocionais. À medida que as programações são reforçadas através de novos eventos, temos grandes chances de desenvolver padrões emocionais, que poderão demandar atenção no futuro. Nessa fase, o tipo de coisas que assistimos ou lemos pode moldar a nossa mente de maneira altamente impactante. Crianças e adolescentes, ao crescerem com dispositivos eletrônicos, podem enfrentar desafios no desenvolvimento de habilidades de atenção plena, o que é essencial para o equilíbrio emocional. “Lembrando que o excesso indica que algo está em falta, e a busca por esse prazer ou distração pode ser um sinal vermelho”, finaliza.
