Instabilidade política tende a pressionar custos logísticos, seguros e exigências de compliance, enquanto impacto direto sobre exportações do Brasil permanece limitado
O agravamento do cenário político na Venezuela deve ter reflexos no comércio internacional brasileiro, mas de forma predominantemente indireta. Embora o país vizinho já tenha tido relevância significativa para a pauta exportadora do Brasil, hoje seu peso é residual: antes do chavismo, as exportações brasileiras para a Venezuela chegaram a representar cerca de 3% do total exportado; atualmente, esse percentual gira em torno de 0,25%. A combinação de desinvestimento prolongado no setor energético, sanções internacionais e isolamento institucional reduziu de forma expressiva o comércio bilateral ao longo da última década.
Segundo a advogada especialista em comércio internacional Carol Monteiro, do Monteiro & Weiss Trade, o impacto mais relevante para o Brasil não está na redução de volumes comerciais, mas no aumento do custo das operações.
“A Venezuela já não é um vetor relevante do comércio exterior brasileiro. O principal canal de impacto de uma nova escalada de tensões é o efeito de contágio, com maior aversão ao risco para operações na região, endurecimento de requisitos de compliance e pressão sobre rotas logísticas, prazos e custos operacionais”, explica.
De acordo com a especialista, o comércio bilateral já vinha sendo severamente afetado pelas sanções impostas pelos Estados Unidos a partir de 2017, intensificadas em 2019 com restrições às exportações de petróleo venezuelano. Essas medidas comprometeram a capacidade do país de gerar divisas e manter fluxos comerciais regulares. Além disso, a Venezuela está suspensa do Mercosul desde 2016, em razão do descumprimento do Protocolo de Adesão e da aplicação da cláusula democrática, o que elimina qualquer efeito direto de preferências tarifárias intrabloco.
Nesse contexto, os reflexos para o Brasil tendem a aparecer sobretudo nos custos logísticos e operacionais.
“Como o fluxo comercial Brasil–Venezuela representa hoje apenas cerca de 0,25% das exportações brasileiras, não há expectativa de impacto relevante sobre os volumes agregados de exportação ou importação. O que se observa é o encarecimento do comércio exterior, com aumento de fretes, seguros, exigências de due diligence e prazos de liberação mais longos”, afirma Carol Monteiro.
A instabilidade política também influencia a percepção de risco da região como um todo. Segundo a advogada, armadores, seguradoras e operadores logísticos costumam precificar risco por corredores e regiões, e não apenas por país.
“Incidentes envolvendo navios venezuelanos e o posicionamento militar dos Estados Unidos já levam a uma reclassificação regional de risco, especialmente em rotas com escalas na costa norte da América do Sul e no Caribe. Isso resulta em maior cautela e critérios mais rígidos para operações na América Latina”, destaca.
Mesmo empresas brasileiras sem relação comercial direta com a Venezuela podem sentir esses efeitos.
“Na prática, isso se traduz em reprecificação de seguros e fretes, aumento das exigências de compliance por bancos e seguradoras e ajustes operacionais impostos por armadores e instituições financeiras, que passam a adotar critérios mais conservadores para a região como um todo”, explica.
Os impactos tendem a ocorrer em duas etapas. Em curto prazo, podem surgir aumentos imediatos de itens mais sensíveis à percepção de risco, como seguros, fretes e prazos operacionais. Já em médio prazo, as empresas tendem a promover ajustes mais estruturais.
“É comum observar diversificação de rotas, revisão de contratos logísticos e reforço de estoques estratégicos, como forma de mitigar riscos operacionais”, afirma a especialista.
Do ponto de vista do comércio internacional brasileiro, o cenário reforça um ambiente já marcado por cautela na América Latina.
“Não se trata de um risco pontual, mas de mais um elemento que contribui para a reprecificação contínua do risco regional, influenciando decisões de investimento, logística e financiamento do comércio, ainda que os efeitos diretos sobre volumes permaneçam limitados”, avalia.
Diante desse contexto, a advogada recomenda que empresas brasileiras adotem estratégias preventivas e monitoramento constante de risco.
“É fundamental mapear exposições indiretas, identificar rotas, operadores e financiadores mais sensíveis à região e reforçar práticas de compliance e rastreabilidade, especialmente para empresas com vínculos com os Estados Unidos”, orienta.
A revisão de contratos logísticos e comerciais, com cláusulas de força maior e mecanismos de flexibilidade operacional, também é apontada como medida essencial para responder com agilidade a mudanças repentinas no ambiente político e regulatório.
