Um estudo da CLA Brasil, empresa de auditoria, consultoria e tecnologia, aponta que 71,8% dos profissionais concordam que comportamentos abusivos são normalizados no ambiente de trabalho como parte da pressão por resultados, e que 72,7% acreditam que lideranças adotam práticas inadequadas sob a justificativa de alta performance. Os dados integram a segunda edição da “Pesquisa CLA Brasil sobre Assédio no Ambiente de Trabalho”.
Segundo Mariana Rodrigues, Gerente de Compliance e Especialista em Investigações Corporativas Comportamentais da CLA Brasil, que liderou o estudo, os dados expõem um problema de cultura organizacional que ainda afeta parte das empresas.
“Algumas tratam bons resultados como justificativa para determinados comportamentos, criando uma distorção: a ideia de que profissionais que entregam muito podem se comportar de forma inadequada sem sofrer as mesmas consequências que os demais, e de que, para algumas lideranças, os limites podem ser mais flexíveis”, explica.
A pesquisa também mostra que 87,8% dos profissionais concordam que pessoas deixam departamentos e empresas por não suportarem a forma de gestão, e que 69,7% acreditam que a permanência nas equipes depende da tolerância a comportamentos inadequados.
Mariana alerta: “Embora modelos de gestão abusivos possam gerar resultados imediatos, seus impactos tendem a aparecer com o tempo, na forma de maior rotatividade, afastamentos, redução do engajamento e perda de produtividade. Os comportamentos abusivos também podem colocar em risco a saúde e a segurança dos colaboradores, além de expor a organização a passivos trabalhistas e danos à reputação”.
A especialista também aponta que condutas impróprias enfraquecem a confiança dos profissionais e comprometem o fluxo de informações. “Para evitar conflitos, as pessoas deixam de pedir apoio e têm receio de comunicar problemas. Com isso, informações relevantes deixam de chegar aos responsáveis pela tomada de decisões. Assim, uma liderança aparentemente eficiente pode, na realidade, estar comprometendo o ambiente de trabalho e criando dificuldades que não aparecem nos resultados de curto prazo”, acrescenta.
Medo de retaliação ainda inibe denúncias
Para 94,5% dos entrevistados, existe medo de retaliação entre os profissionais que reportam casos. Além disso, apenas 52,9% afirmam que confiam em denunciar condutas inadequadas.
A pesquisa indica que a resposta da empresa é o fator que mais pesa na decisão de denunciar. Onde os profissionais percebem que a organização responde adequadamente aos relatos, 87,5% confiariam em reportar uma situação; onde essa percepção não existe, o índice cai para 12,9%.
Especialista em compliance, gestão de riscos e governança da CLA Brasil, Brunna Batista aponta que, ainda que 45,9% dos participantes considerem o programa de compliance da própria empresa estruturado ou avançado, existe o receio de perder oportunidades, sofrer isolamento, ter a carreira afetada ou ser rotulado. A executiva também explica que um canal de denúncias, por si só, não é suficiente para transmitir segurança aos colaboradores.
“Mais importante do que conhecer as políticas e contar com canais estruturados, é compreender como a empresa trata, na prática, as pessoas que denunciam. Quando existe a percepção de que líderes influentes são protegidos ou de que as denúncias não geram consequências, o silêncio tende a prevalecer. A credibilidade do canal é construída a partir das atitudes e dos resultados que surgem depois que alguém decide utilizá-lo”, afirma.
Brunna conclui: “Para que as pessoas se sintam seguras para relatar uma situação, é necessário que existam mecanismos independentes da hierarquia, proteção contra retaliações e, sobretudo, evidências de que os relatos recebem respostas coerentes. Isso envolve investigações conduzidas com qualidade, critérios objetivos para a tomada de decisões e aplicação de medidas proporcionais quando uma irregularidade é confirmada”.
A segunda edição da pesquisa, desenvolvida pelo Núcleo de Investigações Corporativas Comportamentais da CLA Brasil, foi apresentada inicialmente na ExpoCompliance. O estudo ouviu 303 profissionais, e o e-book completo, com todos os insights da pesquisa, está disponível em: https://claglobal.com.br/cla-brasil-resultado-pesquisa-assdio/
Vale ressaltar que o conteúdo considera como condutas inadequadas a exigência de tarefas desnecessárias ou desproporcionais, o constrangimento, o isolamento, a exclusão social, a difamação e a discriminação por raça, etnia, cor, sexo, gênero, religião, deficiência, opinião política, origem social, idade, orientação sexual ou identidade de gênero.
