O modelo de trabalho se tornou o fator mais decisivo na atração de candidato no mercado de marketing e comunicação, à frente de salário, tamanho de vaga ou qualquer outro critério de contratação: uma vaga com home office recebe, em média, 185% mais candidaturas do que uma vaga presencial equivalente, na mesma área e senioridade, o maior efeito isolado já registrado sobre o tema. Logo atrás dele aparecem outros dois fatores que também pesam na decisão do candidato: a transparência da faixa salarial, que quase dobra a proporção de candidatura dentro do orçamento (de 37,4% para 64,1%), e a simplicidade do processo de candidatura, que eleva a conversão de 11,7% para até 22% quando é apenas necessário que o candidato inclua seu currículo, sem que ele precise responder questionários ou perguntas de triagem.
Os números fazem parte de um levantamento da trampos, maior banco de talentos de marketing e comunicação do Brasil. O estudo analisou mais de 8 mil vagas de marketing e comunicação publicadas na plataforma nos últimos 24 meses, com mais de 1 milhão de candidaturas e quase 5,7 milhões de visualizações.
“O modelo de trabalho virou a variável mais forte de atração que existe hoje. Não é o salário, não é o tamanho da descrição da vaga: é onde a pessoa vai trabalhar. Nenhum outro fator testado chega perto desse efeito”, afirma Tiago Yonamine, CEO da trampos.
O achado chama atenção porque vai na contramão do movimento de volta ao escritório que ganhou força no mercado brasileiro em 2026. Segundo levantamento da Robert Half divulgado em julho, o trabalho 100% remoto já responde por apenas 3% das vagas oferecidas pelos clientes da consultoria. E tirar a flexibilidade tem custo: pesquisa da Data Tax, com mais de 1.500 candidatos ativos no país, mostra que 58% dos brasileiros só topariam o modelo presencial integral com aumento salarial de 50%. O dado da trampos mostra o outro lado dessa conta: a empresa que oferece flexibilidade, em vez de tentar compensar sua ausência com salário, já larga na frente na atração, sem gastar um real a mais.
Esconder o salário não filtra candidato ruim, só adia o trabalho do recrutador
O segundo dado do ranking é sobre o que a vaga esconde, não sobre onde o trabalho é feito, e o efeito colateral de esconder cai direto na mesa de quem recruta semanas depois. Quando a faixa salarial fica oculta, 39,5% dos candidatos que se candidatam pedem salário acima do teto que a empresa está de fato disposta a pagar, candidatura que alguém vai ter que filtrar manualmente, uma a uma. Abrir a faixa derruba esse número para 18,4%: mais da metade dessa filtragem manual desaparece antes mesmo de a vaga sair do ar.
A proporção de candidatos com pretensão dentro do orçamento anunciado quase dobra, de 37,4% para 64,1%, e o efeito se repete de forma quase idêntica entre júnior (64,1% contra 43,9%), pleno (64% contra 35,7%) e sênior (64,4% contra 35,3%): não é exceção de um recorte, é padrão do mercado inteiro. A vaga com faixa aberta ainda recebe, em média, 13% menos candidaturas brutas do que a que esconde o valor, mas troca volume por precisão, e é essa precisão que poupa a hora de quem recruta.
“Abrir a faixa não é sobre transparência como discurso, é sobre eficiência de funil. A empresa recebe menos candidaturas, mas recebe a candidatura certa. No fim das contas, quem faz a triagem direito na hora de publicar a vaga não precisa fazer a triagem manual depois”, afirma Yonamine.
Cada pergunta a mais no formulário cobra um pedágio
O terceiro maior efeito medido pela trampos está na complexidade do processo de candidatura. A conversão de quem vê a vaga e efetivamente se candidata cai de 22%, quando não há nenhuma pergunta de triagem no formulário, para 11,7%, quando são cinco ou mais perguntas. A queda é contínua ao longo da escala, não um degrau único. Vaga sem nenhuma pergunta recebe, em média, 20% mais candidaturas brutas do que uma vaga com três perguntas ou mais.
“A empresa monta o formulário pensando em facilitar a própria triagem, mas cada campo a mais é decisão de quem está do outro lado: candidatura tem custo de esforço, e boa parte desiste antes de terminar”, afirma o executivo.
Os três achados apontam para a mesma direção: no mercado de marketing e comunicação, atrair candidato qualificado depende menos de quanto a empresa está disposta a pagar e mais de como ela desenha a vaga. Modelo de trabalho, transparência e simplicidade de processo pesam mais do que qualquer reajuste salarial isolado, e cada escolha errada nesses três pontos não desaparece: ela só vira trabalho manual pro recrutador mais na frente.
