A inteligência artificial já elevou a produtividade de profissionais e empresas, mas esse ganho pode trazer um efeito menos visível no mercado de trabalho: a redução das oportunidades para quem ainda precisa conquistar o primeiro emprego e acumular experiência.
Segundo o estudo Worldwide Future of Work 2026 Predictions, da IDC, ferramentas de inteligência artificial permitem que profissionais economizem mais de 40% do tempo de uma jornada típica de trabalho. Entre trabalhadores de tecnologia, esse percentual chega a 45%. Já o AI Adoption Tracker, da Goldman Sachs, apontou ganho médio de produtividade de 23% entre empresas que adotam IA.
A eficiência, no entanto, muda a lógica de contratação. Quando uma equipe passa a entregar mais dentro da mesma jornada, a tendência é tentar absorver a demanda com os profissionais já contratados antes de abrir novas vagas. O ganho aparece no curto prazo, mas pode reduzir os espaços em que jovens profissionais aprendem a interpretar contexto, identificar erros, lidar com clientes e tomar decisões.
No Brasil, a dificuldade de entrada no mercado já é mais acentuada entre os jovens. O desemprego fechou o quarto trimestre de 2025 em quase 5%, enquanto a taxa entre pessoas de 18 a 24 anos chegava a 11,4%, segundo o IBGE. O dado não estabelece uma relação direta com a IA, mas mostra que o acesso ao primeiro emprego continua mais difícil do que a permanência no mercado.
Nos Estados Unidos, sinais mais diretos começam a aparecer. Um estudo do Census Bureau identificou queda de 12% no emprego de trabalhadores de 22 a 24 anos em setores mais expostos à IA nos dez trimestres posteriores ao lançamento do ChatGPT. A redução das contratações foi o principal fator apontado.
A OCDE ressalta que as evidências sobre os efeitos da IA no emprego ainda são limitadas e que fatores como cenário econômico e mudança na demanda por habilidades também influenciam as contratações. Ainda assim, a combinação entre produtividade maior e menos vagas de entrada chama atenção para o risco de interromper a formação de profissionais.
“Trabalhos iniciais nunca serviram apenas para executar tarefas repetitivas. É neles que profissionais aprendem a interpretar contexto, reconhecer erros, lidar com clientes e tomar decisões”, afirma Daniel Pisano, Head de Investimentos da 87Labs e CGO da Payloop. “Quando essas funções são entregues integralmente à tecnologia, desaparece parte do ambiente que transforma um iniciante em alguém experiente.”
Automação sem eliminar aprendizado
A discussão também contrasta com a escassez de profissionais qualificados. O relatório Global Talent Shortage 2026, da ManpowerGroup, aponta as habilidades em inteligência artificial como as mais difíceis de encontrar no mercado global, à frente de engenharia e tecnologia da informação.
Para Thiago Cruz, CEO da 87Labs, a adoção de IA depende menos da substituição de pessoas do que da capacidade de formar profissionais para usar a tecnologia com critério. “O que falta às empresas não é tecnologia disponível, mas gente preparada para extrair valor dela”, afirma.
A projeção da Gartner reforça essa mudança: até 2030, 75% do trabalho de tecnologia da informação deve ser realizado por profissionais com apoio de IA. Outros 25% ficariam a cargo exclusivo da tecnologia, enquanto a participação de tarefas feitas por humanos sem qualquer suporte de IA tenderia a zero.
“O debate sobre o futuro do trabalho não deveria opor humanos e inteligência artificial. Deveria reconhecer que o ganho real de produtividade está na combinação dos dois”, diz Cruz.
Para preservar a formação de talentos, empresas precisam adaptar estágios, programas de aprendizagem, rotação entre áreas e mentorias. A proposta não é manter tarefas obsoletas, mas permitir que profissionais iniciantes usem ferramentas de IA, revisem seus resultados e desenvolvam julgamento próprio.
“Significa automatizar tarefas sem eliminar o aprendizado”, conclui Pisano.
