O acesso à capital ainda é uma barreira para boa parte das startups brasileiras. Segundo o Mapeamento do Ecossistema Brasileiro de Startups 2025, da Associação Brasileira de Startups, 65,2% das empresas pesquisadas não haviam recebido investimento. Para Rafaella Krasinski, advogada especialista em Direito Empresarial, da Assessoria Talento, empresa que atua na estruturação, gestão e captação de recursos para projetos incentivados e amplia sua atuação para inovação, parte dessa dificuldade pode estar menos na ausência de recursos e mais na capacidade de apresentar uma proposta que possa ser analisada e financiada.
“Financiamento para inovação não começa simplesmente com a procura por dinheiro. Antes disso, a empresa precisa explicar o que pretende desenvolver, qual problema será resolvido, quanto recurso será necessário, como ele será utilizado e quais resultados serão entregues. Uma tecnologia promissora não substitui um projeto estruturado”, afirma.
A diferença é relevante porque startups podem buscar recursos em diferentes momentos do desenvolvimento de uma solução, desde pesquisa e construção de protótipos até validação, aperfeiçoamento tecnológico e expansão comercial. Cada etapa exige uma necessidade financeira específica e pode ser compatível com instrumentos distintos.
Financiamento começa antes da captação
Na avaliação de Rafaella, um dos erros ocorre quando a empresa começa a procurar editais, investidores ou programas de fomento antes de definir exatamente o que pretende financiar.
Um projeto capaz de disputar recursos precisa apresentar uma relação clara entre problema, solução, cronograma, orçamento, entregas e resultados esperados. Dependendo do mecanismo escolhido, também podem ser necessários documentos societários, regularidade fiscal, definição de parceiros, regras de propriedade intelectual e previsão de contrapartidas.
“Quem disponibiliza recursos precisa entender onde a solução está, qual é o próximo passo tecnológico e o que aquele capital permitirá desenvolver. O desafio está em traduzir conhecimento técnico em uma estrutura econômica e jurídica que demonstre viabilidade e capacidade de execução”, explica a especialista.
Um exemplo dessa lógica é a parceria entre Sebrae e Embrapii destinada a pequenos negócios e startups de base tecnológica. O mecanismo apoia projetos de inovação industrial e de tecnologia da informação e comunicação e, segundo o Sebrae, pode reduzir em até 70% a parcela de custos que caberia à empresa em determinadas modalidades.
A possibilidade de acessar o recurso, no entanto, depende da apresentação e da negociação de um projeto tecnicamente viável. É essa etapa anterior à captação que, segundo Krasinski, ainda recebe menos atenção do que deveria.
Tecnologia precisa virar projeto financiável
Na prática, ter uma solução inovadora e possuir uma proposta pronta para receber recursos são situações diferentes. Uma startup pode dominar a tecnologia que desenvolve e, ao mesmo tempo, encontrar dificuldades para demonstrar quanto dinheiro precisa, quais etapas serão financiadas e como os resultados serão medidos.
“Buscar primeiro o recurso e depois tentar encaixar a empresa nas regras tende a enfraquecer a proposta. O caminho mais consistente é estruturar a necessidade, dimensionar o capital e então identificar quais mecanismos são adequados àquela fase do negócio”, afirma a advogada.
A Assessoria Talento, que atua na estruturação, gestão e captação de recursos para projetos incentivados, passa a ampliar essa experiência para projetos de inovação. A nova frente faz parte do diagnóstico da iniciativa para organizar documentação, orçamento, enquadramento, governança e estratégia de acesso a capital.
A lógica é evitar que toda demanda financeira seja automaticamente tratada como necessidade de uma rodada de investimento. Dependendo do projeto e do estágio de desenvolvimento, diferentes mecanismos podem ser avaliados.
“Nem todo desenvolvimento tecnológico precisa começar com a entrada de um investidor na empresa. Antes de discutir de onde o dinheiro virá, é preciso mostrar de forma objetiva o que será feito com ele e qual resultado aquele recurso pretende gerar”, conclui.

