Da política e do setor jurídico à governança e gestão de projetos, a IA terá aplicações cada vez mais específicas
A Inteligência Artificial vem transformando o consumo de informações e os processos no cotidiano e nas empresas. Segundo a Fundação Itaú, 93% dos brasileiros usam ferramentas de IA no cotidiano, entretanto, somente 54% entendem com certeza o significado do termo. Já para as empresas, apesar da euforia em relação ao uso de novas funcionalidades no ano passado, dados do McKinsey Global Survey, mostram que, apesar de 78% das companhias declarar o uso dessas ferramentas, em termos de mensuração somente 1% dos projetos gera resultados consolidados.
Nesse cenário, a expectativa de especialistas é que, em 2026, o uso da IA deve se tornar cada vez mais estratégico e voltado para aplicações práticas da tecnologia. Enquanto isso, cada vez mais, é esperado que a IA se embrenha cada vez mais no cotidiano.
Pensando nisso, 8 especialistas trazem o que esperar da IA para 2026 em diferentes setores . Confira!
1) Assistentes de IA nas eleições: a disputa pelo voto começa nas respostas
Segundo Marcelo Bissuh, fundador da Nomos, startup de dados políticos e monitoramento de risco, a IA deve se tornar essencial nas eleições de 2026, em parte, pelo potencial como ferramenta de pesquisa e produção de conteúdo. “A tecnologia está fazendo pela produção de conteúdo o que a internet fez pela distribuição: quebrou o monopólio dos grandes atores e deu um canal direto e poderoso a todos. Cada vez mais, o público recorre a assistentes de IA como ChatGPT, Claude ou Perplexity para obter desde recomendações até a checagem de fatos. Isso inaugura uma nova fronteira para a comunicação política: o que chamo de “SEO para Inteligência Artificial”. Se antes a presença digital era sobre ser encontrado no Google e nas redes sociais, hoje é crucial aprender a ser uma resposta relevante e confiável dentro desses novos ecossistemas de informação”, explica.
2) Da execução à decisão: a advocacia em transformação
Para Rafael Grimaldi, cofundador da Inspira, legaltech pioneira em tecnologia e IA jurídica, a transformação do Direito passa menos pela substituição de profissionais e mais pela redefinição de onde está o valor do trabalho jurídico. Segundo o relatório Legal Trends 2026, da Bloomberg Law, estamos entrando na era da IA agêntica no jurídico, uma tecnologia capaz de atuar de forma autônoma, conduzindo tarefas e decisões conforme o contexto. A diferença não é apenas tecnológica, mas estrutural, especialmente quando falamos dos modelos baseados em horas faturáveis. Com isso, a IA desloca o foco do trabalho jurídico da execução para a tomada de decisão. Em 2026, a combinação entre pressão de clientes, exigência de competência tecnológica e amadurecimento da IA marca um ponto de inflexão. Escritórios que tratarem a IA como estratégia estarão mais preparados para liderar a próxima fase da advocacia.
3) Maior eficiência administrativa para as empresas
Josiani Silveira, CEO da SoftExpert, multinacional especializada em soluções de software para conformidade, governança e gestão empresarial, conclui que a IA é essencial para a gestão ao facilitar a análise de documentos e as análises de risco. “A verdadeira revolução do uso dessa tecnologia não está nos chatbots que ganham manchetes, mas nas operações que não são visíveis, ou seja, nos processos manuais que consomem horas, geram retrabalho e afastam o time do que realmente importa para o sucesso do negócio. O uso da IA aplicada ao backoffice está mudando esse jogo com o processamento inteligente de documentos digitais, análise automática da OKRs e identificação antecipada de riscos. Tudo isso otimiza e libera pessoas para uma atuação verdadeiramente estratégica”.
4) Impacto dos agentes especializados nos processos
Já para Marcelo Clara, CTO da Quod, datatech que transforma dados em inteligência para a tomada de decisões, a resposta está nos agentes especializados. “Durante muito tempo, falar de Inteligência Artificial no ambiente corporativo significava apenas a abordagem relacionada à automação pontual ou modelos estatísticos aplicados a problemas muito específicos. Com a chegada da IA generativa, entramos em uma nova fase de orquestração inteligente do trabalho. O grande avanço não está em ‘um modelo que responde perguntas’, mas na evolução de agentes altamente especializados que executam tarefas complexas, com controle, rastreabilidade e governança de nível corporativo. Mais do que eficiência, o principal ganho é a confiança operacional: a certeza de que a tecnologia está a serviço do negócio e não o contrário”.
5) IA e Recrutamento: competências no centro da seleção
Para Matheus Fonseca, cofundador da Leapy, a inteligência artificial pode tornar o recrutamento mais justo e inclusivo – desde que seja aplicada com base em critérios objetivos.“A IA não elimina vieses sozinha — ela os amplifica, se não mudarmos os critérios de decisão. Mas quando bem desenhada, a IA avalia pessoas pelo que têm potencial de fazer, e não apenas pelo que já fizeram. Isso reduz arbitrariedades e torna mais claros os critérios de decisão”, afirma. Ele defende a adoção do modelo de skill-based hiring como um dos caminhos mais eficazes para ampliar oportunidades, especialmente entre jovens e profissionais de origens sub-representadas. Segundo o World Economic Forum, mais de 50% das habilidades críticas para o trabalho em 2026 não são bem capturadas por currículos tradicionais, e estudos da Harvard Business School e da OCDE apontam que a abordagem skill-based contribui para maior diversidade, mobilidade social e acesso ao trabalho. Para 2026, a expectativa é que a IA seja usada de forma mais estratégica e transparente, apoiando decisões com dados e promovendo processos seletivos mais justos e auditáveis.
6)De ferramenta de apoio ao motor central dos negócios
Para Gustavo Bassan, VP de Engenharia da BossaBox, consultoria referência em squads-as-a-service no Brasil, a Inteligência Artificial entra em 2026 em um novo estágio de maturidade, deixando para trás o uso pontual e a lógica de experimentação para se consolidar como parte da infraestrutura das empresas: “Mais do que automatizar tarefas, a IA passa a sustentar decisões, identificar necessidades, tomar ações em tempo real e orquestrar fluxos inteiros de produção, da lógica de negócio à operação. Esse momento transforma a forma como se pensa o papel humano nesse contexto: saindo da atuação focada na execução e passando a operar como arquitetos, curadores e orquestradores de sistemas de IA. Para que isso funcione, torna-se indispensável um domínio profundo de contexto (da empresa, do produto, do ciclo de desenvolvimento e das restrições do negócio) já que, sem esse entendimento, a IA dificilmente consegue gerar valor real.” Para Bassan, o diferencial em 2026 estará menos na adoção acelerada da tecnologia e mais na capacidade de integrá-la de forma consistente, responsável e alinhada à estratégia e às complexidades reais da operação, tratando a IA não como um recurso acessório, mas como parte estrutural do negócio.
7)Inteligência relacional é diferencial para líderes na era da IA
Para Laís Macedo, presidente do Future Is Now, um hub de networking voltado para líderes que protagonizam a nova economia, a automação de processos só deixou mais evidente a necessidade das competências humanas – especialmente aquelas ligadas à criação de vínculos, leitura de contexto e liderança empática – que se tornaram ainda mais estratégicas para garantir sustentabilidade e competitividade das empresas no longo prazo. “Mais do que saber se comunicar, trata-se da capacidade de construir relações genuínas, lidar com subjetividades, adaptar-se a diferentes realidades e sustentar conexões significativas, habilidades que trabalham junto com a IA e se tornaram pilares para o sucesso e a inovação nos negócios do futuro”, finaliza.
8) IA impõe modelos de comunicação mais adaptáveis
Para Helena Prado, presidente executiva da Pine, agência de comunicação que une PR, conteúdo e tecnologia para posicionar marcas que lideram a inovação, a ascensão da Inteligência Artificial impõe uma mudança estrutural na forma como as marcas planejam, constroem e sustentam sua relevância. Segundo ela, em um cenário de dados em tempo real, com análises cada vez mais profundas e interações personalizadas em escala, estratégias rígidas perdem espaço para modelos de comunicação baseados em adaptabilidade radical. “Em tempos de IA, esses planos precisam ser vistos cada vez mais como estruturas vivas, prontas para serem atualizadas diante de novos dados, tendências ou mudanças de comportamento do público. Ao mesmo tempo, o branding passa a ser diretamente impactado pela IA, e o uso dessas tecnologias deixa de ser opcional e se torna um fator crítico de competitividade, especialmente diante das buscas assistidas por inteligência artificial, que redefinem as regras da visibilidade digital”, afirma a executiva.
